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Ava
Acordei com um frio na barriga. Não era exatamente medo. Era nervosismo, vergonha e expectativa, tudo misturado. Havia passado tanto tempo evitando pensar em mim que agora, diante da possibilidade de começar a cuidar da minha saúde, não sabia como me sentir.
Depois da conversa que tivemos, Gregório me passou o contato da doutora Isabela Menezes. Fui eu quem decidiu marcar a consulta. Queria entender o que estava acontecendo com meu corpo e, principalmente, encontrar uma maneira de melhorar minha relação com a comida.
Gregório me levou ao consultório no próprio carro. Dirigiu em silêncio, mas com aquela tranquilidade dele que me fazia sentir menos exposta. Eu estava nervosa. Mais do que gostaria de admitir e muito mais do que demonstrava.
A clínica ficava em um prédio elegante, de vidro fumê e jardim vertical. Gregório estacionou na frente, desceu primeiro e deu a volta para abrir minha porta.
Ava: — Isso não é necessário.
Gregório: — Eu sei. Mas gosto de fazer.
Entramos juntos. O ambiente era moderno, mas acolhedor, com tons claros, plantas e um cheiro de lavanda misturado com café fresco. A recepcionista sorriu assim que nos aproximamos.
Recepcionista: — Bom dia, senhorita Ava. A doutora Isabela já está esperando por você.
Meu nome estava no sistema. Com hora marcada. Com tudo organizado. Era estranho perceber que finalmente estava fazendo alguma coisa por mim, depois de tantos meses vivendo em função dos problemas que Brian havia deixado.
Subimos pelo elevador espelhado. Quando vi minha imagem refletida ao lado de Gregório, senti um nó na garganta. Ele estava impecável, como sempre, enquanto eu ainda tentava me acostumar com as mudanças que meu corpo havia sofrido. Desviei os olhos do espelho, mas, dessa vez, fiz um esforço para não me criticar.
Quando a porta abriu, a doutora estava nos esperando.
Doutora Isabela: — Ava? Seja muito bem-vinda.
Ava: — Obrigada.
Ela estendeu a mão, firme, mas gentil. Era uma mulher elegante, de sorriso profissional e expressão tranquila. Gregório entrou comigo, mas permaneceu próximo à porta.
Doutora Isabela: — Você prefere conversar sozinha ou gostaria que ele acompanhasse a consulta?
Olhei para Gregório, que aguardava minha resposta sem interferir.
Ava: — Ele pode ficar.
A médica assentiu e indicou uma poltrona diante da escrivaninha. A sala era ampla, iluminada naturalmente e tinha alguns modelos anatômicos sobre uma estante.
Doutora Isabela: — Vamos conversar, Ava. Quero entender sua rotina, seu histórico de saúde e o que a trouxe até aqui.
Sentei, ajeitando a roupa sobre os joelhos. Minhas mãos estavam suadas.
Ava: — Eu passei por uma situação muito difícil. Perdi meu bebê e, depois disso, comecei a descontar muita coisa na comida. Ganhei trinta e cinco quilos durante esse período. Às vezes comia mesmo sem sentir fome, principalmente quando estava triste. E depois me sentia culpada.
Isabela ouviu atentamente, sem me interromper.
Ava: — Eu também parei de me cuidar. Não tinha vontade de sair, de me arrumar, de fazer praticamente nada. Comecei a sentir cansaço, dores nas pernas e dificuldade para dormir. Agora quero entender como está minha saúde.
Doutora Isabela: — Primeiro, obrigada por compartilhar tudo isso comigo. Você passou por uma perda importante, Ava, e o sofrimento emocional pode influenciar bastante nossos hábitos. O fato de estar procurando ajuda já nos permite começar a investigar o que você precisa.
Respirei fundo. Era bom conversar com uma profissional que não parecia interessada em me julgar.
Ava: — Eu não quero mais viver brigando comigo mesma.
Doutora Isabela: — Então vamos trabalhar respeitando seu corpo e seu momento. Não precisamos transformar esse processo em uma cobrança. Quero avaliar sua saúde e entender quais cuidados podem melhorar seu bem-estar.
Ela fez algumas perguntas sobre meu sono, alimentação, histórico médico e sintomas. Contei que estava fazendo acompanhamento psicológico com Camilla e que ainda enfrentava dificuldades para lidar com o luto.
Doutora Isabela: — É importante continuar esse acompanhamento. Também podemos investigar possíveis alterações hormonais ou metabólicas e avaliar se existe alguma relação com os sintomas que você descreveu.
Ava: — Vou precisar fazer exames?
Doutora Isabela: — Vou solicitar alguns exames de sangue e verificar sua função tireoidiana e outros indicadores de saúde, conforme seu histórico. Depois, com os resultados, teremos uma visão melhor.
Ava: — E a alimentação?

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