Yunice olhou para Owen com tristeza, com seus olhos cheios de um misto de mágoa e ressentimento.
Aquela casa tinha sido deixada pelo pai deles!
Também sou filha da família Saunders! Com que direito Owen queria me expulsar?
Ninguém tinha o direito de me jogar para fora da casa do meu pai!
O papai havia deixado um testamento, dividindo os bens em três partes: o imóvel ficou para mim, as economias foram para Oscar, e as ações do hospital para Owen.
Ele tinha dito que, por eu ser mulher, precisaria de uma casa como base quando me casasse. Oscar, com o dinheiro, poderia investir nas pesquisas para seus novos medicamentos. E Owen, com suas conexões médicas, alavancaria as vendas da farmacêutica. Eu, por minha vez, contribuiria com insights para os desenvolvimentos de Oscar.
Nós três deveríamos trabalhar em conjunto, em um ciclo virtuoso. Agora que eles estavam realizados, me achavam inútil e queriam me descartar?
Yunice estava tão furiosa que mal conseguia respirar. Cerrou os punhos com força e encarou Owen com raiva.
Ela queria explodir, mas a razão falava mais alto, ela não podia enfrentá-los de frente.
Agora, não posso nem se quer provar quem eu sou. Mencionar o testamento só serviria para beneficiar Elsie.
Além disso, depois de três anos internada no hospital psiquiátrico, tinha perdido meus contatos e recursos. Sem dinheiro e sem apoio, quem me ajudaria num processo judicial?
Yunice fechou os olhos, tomada pela frustração e raiva. Sem poder não servia de nada. Enfrentar meu irmão de frente só me mandaria de volta para o hospital.
Quando os reabriu, já não havia emoção em seu olhar. Com o braço, limpou os grãos de arroz que haviam ficado em seu rosto.
Então, abaixou-se rapidamente e pegou a coxa de frango do chão. Hesitou por um instante ao ver o óleo vermelho de pimenta que a cobria.
Mas foi só por um momento. Em seguida, deu uma mordida grande e engoliu de forma mecânica, como uma boneca sem vida.
Todos ficaram atônitos. Elsie fez sua habitual encenação e exclamou, preocupada: “Yunice, não coma isso, está sujo…”
Até Owen ficou surpreso, ele não esperava que sua irmã realmente comesse algo do chão.
Foi nesse instante que uma voz chocada veio da entrada: “O que está acontecendo aqui?”
Margaret Grant, mãe de Paul, estava tão surpresa que esqueceu de toda etiqueta e entrou apressada.
Foi só quando viu Yunice realmente comendo comida do chão que se virou para Owen e Lily, com uma expressão impossível de decifrar.
Lily imediatamente desviou o olhar, envergonhada.
Owen se adiantou para cumprimentá-la. “Dona Margaret, o que a traz aqui?”
Margaret ergueu a mão, recusando o cumprimento. Ela tinha vindo para tirar satisfações com Owen, mas ao ver Yunice agachada, comendo comida do chão, correu até ela e arrancou a comida de suas mãos.
Sua voz tremia, angustiada: “Não coma isso! É muito apimentado! Seu estômago é fraco! Como você aguenta tanta pimenta?”
Owen achava que Margaret estava indignada por Yunice comer do chão, mas ao ouvi-la falar da gastrite, ficou atordoado.
Desde quando ela tem problema no estômago?
Yunice, agora amparada por Margaret, virou-se para seu irmão e perguntou: “Pronto, comi. Está satisfeito agora?”
Owen ficou sem palavras.
Não era isso que eu queria dizer. Achei que ela estava se fazendo de difícil, comendo só arroz branco.
“Se você estava com o estômago ruim, por que não falou nada?”
Yunice respondeu: “Eu falei. Mas você disse que a mamãe tinha se esforçado para cozinhar, e que eu não podia ser fresca. Disse que uma mordida não ia me matar.”
Na região montanhosa onde viviam, a comida era escassa e as pessoas se acostumaram a pratos apimentados. Depois de morar lá por quinze anos, Lily e Elsie já estavam habituadas.
Ao voltar para casa, querendo compensar o tempo perdido, Lily passou a cozinhar banquetes picantes com frequência.
Elsie adorava, e os dois irmãos não ligavam. Mas eu nunca consegui comer pimenta.
Quando era pequena, papai teve que fazer os dois papéis, e como não podia cuidar de mim o tempo todo, contratou uma babá. Mas ela me deixava com fome constantemente, o que fez com que eu desenvolvesse problemas no estômago.
Depois disso, papai passou a me levar junto para onde fosse viagens, reuniões, o que fosse para cuidar de mim de perto e garantir que eu melhorasse.
Mas nos três anos em que fiquei internada no hospital psiquiátrico, fui mal alimentada, e meu estômago ficou ainda mais sensível.
Não queria que as coisas chegassem a esse ponto…
Antes, Yunice tinha perguntado se eu estava satisfeito.
Como eu poderia estar? Por quê? Ela é minha irmã. Ver ela sofrendo só me faz sentir uma dor por dentro.
Mas Yunice fez exatamente o que pedi. Quando mandei segurar o carvão em brasa, ela segurou. Quando pedi para ela ficar ereta, ela ficou. Quando mandei comer, ela comeu.
E mesmo assim, não me sinto feliz. Esse não era o resultado que eu queria. Só queria que ela fosse obediente, que se enturmasse com a família, sem mágoas.
Mas parece que só piorei tudo…
Owen se voltou para Lily. “Mãe, você realmente não sabia que a Yunny não pode comer pimenta?”
“Hã?” Lily se assustou e desviou o olhar, nervosa, antes de murmurar: “Ela nunca me falou.”
Lily havia sofrido muito na vida, e por isso era profundamente respeitada por Owen e Oscar. Nenhum dos dois jamais tinha se exaltado com ela.
Mas naquele dia, Owen quebrou a regra. Mesmo vendo o desconforto da mãe, insistiu: “E você alguma vez perguntou o que ela gosta de comer?”
Lily hesitou antes de dizer, gaguejando: “Talvez por eu não ter criado ela desde pequena, ela não se sinta próxima de mim… Ela quase não fala comigo…”
A expressão de Owen ficou sombria. Sabia que ela estava mentindo.
Vi minha irmã crescer. Quando era criança, todo aniversário ela pedia que a mãe voltasse e a abraçasse.
Na primeira noite em que mamãe voltou para casa, Yunice implorou para dormir com ela, dizendo que queria contar tudo o que tinha guardado por uma vida inteira.
Mas o que a mamãe disse?
Disse que Elsie estava com medo, que a cama era pequena demais para três pessoas, e mandou Yunice dormir sozinha.
Foi a primeira vez que Owen percebeu que talvez a mãe nunca tivesse se importado de verdade com sua irmã.
E na porta, Paul havia assistido tudo. Ele tinha vindo com sua mãe.
Margaret era mãe de Paul, e acompanhou Yunice crescer. Sempre se deram muito bem.
Paul tinha ido à mansão Saunders naquele dia porque seu pai queria reunir as duas famílias para um jantar e discutir oficialmente o rompimento do noivado.
Margaret temia que o rompimento fosse mais um golpe para Yunice, então resolveu buscá-la pessoalmente, para prepará-la com antecedência.

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