— Senhor, o que o senhor decide? Devemos cancelar os contratos ou aprová-los? — Perguntou com cautela o diretor de operações da empresa, quebrando o silêncio que já durava tempo demais.
Ele era um homem alto, de ombros largos, com cabelo escuro e encaracolado, aparado com cuidado nas laterais. Algumas mechas soltas caíam sobre a testa, suavizando seus traços marcantes. Os óculos retangulares lhe davam uma aparência inteligente, quase nerd. Um contraste evidente com a presença fria e autoritária de Gabriel.
A sala de reuniões estava tensa. Todos sentados ao redor da longa mesa de mogno aguardavam que o diretor falasse. Mas Gabriel não falou.
Ele permanecia imóvel, o olhar fixo na pilha de pastas à sua frente, embora estivesse claro que sua mente estava longe dali.
Ultimamente, a empresa vinha sofrendo irregularidades como contratos com valores inflados, despesas sem explicação e transações suspeitas. Gabriel havia suspendido todos os novos acordos até que a situação fosse investigada. A reunião de hoje tinha como objetivo resolver a questão. Todos os grandes contratados haviam sido convocados, inclusive seu sogro, Charles, pai de Isla.
Ainda assim, mesmo naquele momento, os pensamentos de Gabriel não estavam totalmente presentes.
Por mais que tentasse se concentrar, sua mente sempre voltava para sua esposa Isla. A imagem dela, sorrindo levemente nos braços de outra pessoa, criada puramente pelo ciúme e pela imaginação, o estava destruindo. Era irracional, mas aquilo o corroía, turvando seu julgamento e distorcendo suas crenças.
— Senhor?
O diretor de operações pigarreou suavemente, tentando trazer Gabriel de volta de onde quer que seus pensamentos estivessem. E funcionou. Gabriel piscou, desviando o olhar para o homem.
— Eu estava perguntando. — Disse o diretor de operações novamente.
— Qual é a sua decisão, já que todas as evidências estão bem diante do senhor.
Gabriel soltou o ar lentamente, ajeitando a postura na cadeira de couro. Inclinou-se para trás, passando o polegar pelo maxilar, como se o gesto pudesse aliviar a tensão em sua mente.
— Se me permite perguntar. — Disse ele, em tom calmo, porém carregado.
— Qual seria a sua decisão em uma situação como esta?
O diretor de operações hesitou, depois ofereceu um leve sorriso diplomático.
— Sinceramente, senhor… seria melhor cancelar todos os contratos pelo menos até um novo aviso.
Suspiros e murmúrios se espalharam pela sala. Vários contratados trocaram olhares nervosos, as expressões se fechando.
A voz de Gabriel cortou o ruído baixo, profunda e resoluta:
— Todos os contratos estão cancelados. Todos podem sair, exceto o senhor Charles.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Os contratados congelaram, a incredulidade estampada nos olhos. Mas o diretr já havia falado. O tom não deixava espaço para discussão.
Relutantes, eles reuniram seus documentos e se levantaram. Mesmo enquanto deixavam a sala de conferências, seus olhares permaneciam em Gabriel, como se esperassem que ele mudasse de ideia. Mas ele sequer os olhou.
O diretor de operações, conhecendo bem o chefe, fez um gesto curto em direção à saída. Quando o último homem saiu, as portas pesadas se fecharam com um baque surdo, deixando apenas três homens para trás: Gabriel, Charles e o diretor de operações.

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