Na manhã seguinte se sentia um trapo humano, a forte dor de cabeça pela falta de descanso não seria motivo para se levantar tarde.
Esticou a coluna bocejando, estudou os projetos beneficentes da Acrópole a noite toda, agora já tinha noção do que eles esperavam para uma premiação como aquela.
Teria que ralar muito para ganhar.
Escovou os dentes com pressa, colocou um jeans surrado e uma blusa de alças finas preta. Precisava sair logo, para não se atrasar para a reunião com o orientador na faculdade.
A tarde deveria comparecer na Holding, para a entrega de documentos e assinar seu contrato de trabalho. Estava marcado para às três da tarde, então teria um tempinho no almoço para se arrumar.
Passou um café forte e tomava uma xícara bem generosa quando viu uma Samantha de pijama amassada e cabelo armado, com cara de dor adentrando a cozinha.
Com um gesto dramático de suas mãos compridas, pediu café assim que se jogou sobre uma cadeira.
-Bom dia Sam, chegou tarde ontem hein. Conheceu algum gato? – Amélia lhe entregou o café e sorriu com a careta que ela fez.
- Sabe que tenho namorado, sua malandra. O pessoal me fez dar atenção para um gringo que foi impossível tolerar sem varias taças de pro seco. – ela bebeu em gole e beijou as mãos de Amélia, fazendo uma expressão exagerada de gratidão. – Acho que vi a luz do seu quarto acesa quando cheguei, estava estudando imagino.
- Sim, isso mesmo e agora tenho que dar um pulo na faculdade. – disse terminando de virar sua xícara.
- Você é tão dedicada Mel, me enche de orgulho. – Sam jogou os cachos rebeldes para trás e lhe deu um sorriso esperançoso. – A propósito, o que decidiu sobre o emprego?
- Eu aceitei. Agora tenho que ir. – respondeu pegando suas coisas rapidamente e seguindo para a porta da frente sendo seguida por Sam que comemorava com uma dancinha requebrando o bumbum.
-Volte direto para casa, você vai precisar de roupas novas, não pode trabalhar em uma multinacional vestindo trapos. - Sam estava falando rapidamente enquanto a observava prender os cabelos em um coque mal feito. - Também temos que tratar seu cabelo, vamos no salão hidratar suas madeixas poderosas.
- Não tenho dinheiro para isso, e você não vai gastar um centavo comigo.
- Bobagem, e você não tem escolha. - Sam acenou com a mão, como se encerrasse o assunto.
-Está bem Sam, até mais tarde. – se não concordasse ela não daria sossego de qualquer forma.
A manhã passou voando. Esteve reunida com o pessoal da turma da faculdade com seu professor até as onze e meia. Chegou em casa por volta do meio -dia. Até mesmo o seu fusquinha estava colaborando hoje.
A mágica de Sam era milagrosa, ela conseguiu transformá-la de uma estudante gorda e deslocada de roupas desbotadas, para uma mulher apresentável de aspecto profissional.
Depois que chegou em casa, foi arrastada para o salão de beleza. Fez as unhas e os cabelos, e depois foram ao shopping de classe média baixa, que era o único que aceitava comprar alguma coisa.
Na verdade, se dependesse dela, teriam comprado suas roupas nas galerias do calçadão. Seria muito mais barato, e poderiam poupar dinheiro para os gastos mensais que a preocupavam demais.
Mas Samanta estava irredutível quanto a isso. Ela comprou roupas de alfaiataria simétricas e modernas, que faziam Amélia parecer elegante sem nenhum esforço.
Se identificou na recepção com uma magrela que olhava para ela com nojo. Não teve tempo de conferir se sua maquiagem havia derretido com o calor, e nem se tinha manchas de suor na roupa.
De imediato foi direcionada ao primeiro andar, na mesma sala de conferências que esteve dois dias atrás.
Dois homens a aguardavam, o mais alto lhe pareceu brevemente familiar. Alto, de cabelos escuros de corte baixo, com óculos de aro, se apresentou como Ticiano Duarte, o assistente sênior da presidência.
O outro era um dos representantes do Rh da companhia, baixinho e calvo com um sorriso simpático atrás dos óculos finos que quase sumiram em suas bochechas salientes, se chamava Saulo Torres.
O contrato foi assinado rapidamente, ficou acordado que ela começaria no dia seguinte, iniciando uma imersão na companhia de imediato através da plataforma digital exclusiva da Acrópole.
Ticiano Duarte entregou seu cartão com seus dados e lhe disse que ligaria mais tarde com informações adicionais e seu usuário e login de acesso. Foi incisivo em afirmar a importância do contrato de sigilo e privacidade assinado por ela, e afirmou que seriam ótimos companheiros de trabalho com a mesma expressão séria que revisou os documentos.
Amélia se sentia mergulhando em águas profundas e turbulentas, onde nada era visível ou confiável. Mesmo que estivesse fazendo isso pelos motivos certos, não deixava de sentir medo pelo que poderia acontecer de agora em diante, principalmente em relação a Ícaro Darius.
Enquanto saia do prédio, a possibilidade de dar de cara com ele a qualquer momento enervava seus sentidos. Seria sempre assim daqui para frente? Todas as vezes que pisasse nesse lugar, ficaria nessa agonia constante?
Apressou o passo tentando manter o equilíbrio. Só conseguiu voltar a respirar normalmente e relaxar um pouco quando já estava em seu fusquinha quente como um forno de padaria.
Não poderia arriscar perder o acordo com o banco e nem seu futuro na arquitetura. Manter a distância daquele homem, era essencial. Não deveria ter qualquer interação pessoal com ele.

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