Ícaro
O horizonte se tingiu de laranja, as nuvens manchadas de um tom de roxo e azul eram uma inegável obra de arte. Ele levou uma caneca de café fumegante aos lábios.
Entendia porque Amélia pensou em refazer sua vida nesse lugar, era perfeito para criar raízes, ter filhos e vê-los crescendo e brincando na rua. Não era uma má ideia abandonar a cidade grande, mas infelizmente para ele esse não era um sonho possível.
Um império dependia de sua direção, de seu comando firme e decidido. Ele era a mão de ferro que conduzia a Acrópole ao topo.
O celular vibrava insistentemente, Alberto estava ligando desde muito cedo. As coisas em São Paulo estavam estranhas. Havia a possibilidade de Astrid ter feito um movimento impensado.
Sabia disso através das mensagens de Vitório, porque não havia ninguém que fazia ele atender ao telefone.
Acontece que ele não estava com vontade de falar com ninguém nesses últimos três dias que passou com Amélia nessa casa pequena no fim da rua ladeada de ipês roxos.
Sabia que essa bolha de felicidade estava chegando ao fim. Mas desde que ela se abriu, contando parte do seu passado, ele não foi capaz de simplesmente colocá-la no carro e ir embora.
Amélia ainda precisava de tempo.
Ela estava assustada e ao mesmo tempo eufórica com a gravidez. Tudo nela estava fora do lugar, com uma intensidade desproporcional. Não era o momento para arrastá-la de volta a São Paulo onde havia tanta tensão e problemas.
Estava protelando esse retorno até por ele mesmo. Intimamente, queria desfrutar dessa tranquilidade, pensando em seu filho que crescia dentro de sua mulher.
A criança que ambos sempre desejaram, mas que não pensaram que seria possível ter. O Todo Poderoso estava realmente do seu lado.
Mãos pequenas deslizaram por sua cintura, o abraçando em um aperto macio e gostoso.

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