Várias luzes da cidade já se apagaram e os fogos de artifício tinham terminado a muito tempo. Amélia e Ícaro ainda estavam abraçados no alto da colina, enquanto ela contava sua história, somente com o céu como testemunha.
- Tentei pedir ajuda aos meus pais quando eu percebi que ele não ia parar. A essa altura, eu já estava cheia de marcas de chicotadas por todos as partes que ficavam cobertas pelas roupas. – Amélia fixou os olhos num ponto da noite, pensando o quão sozinha e abandonada se sentiu. – Meu celular foi confiscado e ficava em poder de Fernando, ele maquiava minhas atividades para que tudo parecesse normal. Quando eu finalmente consegui fazer contato, minha mãe foi quem atendeu a única ligação que eu consegui fazer com a ajuda da cozinheira. Ela me disse que eu não devia caluniar meu marido com mentiras tão abomináveis só porque ele estava determinado a me transformar em uma verdadeira dama.
- Vadia estúpida
- Me dei conta que estava totalmente sozinha, e que ninguém se importaria com o que ele fizesse comigo. – um suspiro pesaroso. – Os espancamentos se tornaram mais violentos, principalmente porque as pessoas passaram a perguntar sobre a minha ausência nos eventos sociais. Até nisso eu tinha culpa.
- Com um ano de casada eu tinha levado mais de duzentos pontos ao todo pelo corpo, onze ossos quebrados e tive quatorze infecções graves. – Amélia se acomodou no meio das pernas de Ícaro, sentindo seus braços e seu peito forte a acolherem. – O médico que me atendia era um dos sócios dele, e disse que se eu desenvolvesse a mesma infecção mais uma vez, eu iria morrer. Ele não gostou disso nenhum pouco, mas ele não queria lidar com uma atenção dessas naquele momento.
- O Fernando ficou mais contido por algumas semanas, e chegou a me levar em um evento social, em que ele era o homenageado. Eu não podia falar com ninguém sem a presença dele, e não houve nenhuma oportunidade de fugir.
- Não conseguiu pedir ajuda, falar com alguma mulher no banheiro, talvez?
- Não. Ele mando seu assistente esvaziar o banheiro antes que eu entrasse e esperava do lado de fora até que eu saísse. – ela esfregou o rosto, irritada. – Isso foi tão irônico porque na nota do jornal, falava que ele me estimava tanto que se preocupava com minha saúde debilitada, até mesmo me acompanhando até o toalete.


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