Ícaro
Ele se controlou o máximo possível para que seu corpo não expressasse a sua ira e a revolta cega que tomava conta de todos os seus sentidos. Essa nova informação era muito desconcertante e intragável.
Amélia havia se levantado, para fechar a casa, ela queria sair para algum lugar. Entendia como ela se sentia, ele mesmo estava sufocado com as coisas que ela relatou, e o pior era saber que isso era só o começo.
- Vamos? – ela chamou.
Ela tinha substituído o shortinho de moletom e a blusa fina de alças estreitas, por uma calça jeans e uma camiseta larga cinza, e os tênis que ela usou para fugir de casa.
Ícaro se levantou e pegou a mão dela.
Saíram juntos para a noite fresca com cheiro de flores, o vento trouxe pétalas aos cabelos dela, enfeitando aquela seda escura brilhante. Puxou o ar satisfeito só por poder estar ao lado dela novamente.
Ao cruzarem o portão baixo enferrujado, ele buscou as chaves do carro no bolso.
- Não precisamos do carro. Quero te levar a um lugar.
- Tudo bem. Estou em suas mãos.
Com as mãos entrelaçadas, eles caminharam pela rua até a última casa do bairro. Uma trilha de terra batida, levava ao alto de uma colina. Amélia guiava seus passos sem nenhum receio, vaga-lumes levantavam voo da relva molhada de orvalho.
No alto da colina a grama macia mostrava a cidade incrustada como uma joia preciosa entre o desfiladeiro. Ela se sentou no chão sem a menor cerimônia, olhando para o céu estrelado, decorado com uma lua minguante.
Ícaro se deitou ao lado dela, acomodando sua cabeça em seu braço. O braço dela circundou sua cintura e ali ela chorou, despojada de todos os seus anseios e seus piores medos.

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