Ícaro
- Poderia ter me adiantado o assunto, meu dia está cheio. – Alberto disse assim que se sentou no banco do bar do restaurante.
- Eu não estou menos ocupado que você, então não me venha com essa. – Ícaro pediu mais uma dose. – Você fez o Vitório perseguir a minha mulher no trabalho. – afirmou com um tom cortante.
- Pedi que ela fizesse algo, e ela se recusou. Foi só um lembrete. – Alberto respondeu com o mesmo tom frio e uma expressão monótona.
- Imagino que o seu pedido não tenha nada a ver com o trabalho dela.
- Isso não vem ao caso. – Alberto bebeu a vodka pura, sem um fio de arrependimento. – A Bastos é petulante.
Ícaro se segurou para não quebrar os dentes de seu irmão. Ele não tinha o direito de falar nada sobre Amélia.
- Não devia te dizer isso, mas que se foda. – Ícaro se virou para ele com uma carranca. – A pessoa que você tentou prejudicar está empenhada em ganhar esse premio somente para salvar a Samanta da ruina.
Alberto parou o movimento de levar o copo à boca, olhando fixamente para a madeira escura do balcão.
- O que foi que você disse?! – perguntou, apertando o copo com força.
Ícaro se enrijeceu, essa reação ameaçadora e sinistra não era incomum partindo de seu irmão caçula. Seu pai costumava dizer que Alberto convivia com um passageiro sombrio.
Ele era duro e inflexível, muitas vezes assustava as pessoas somente com a porra de uma olhada. Quando era garoto e se envolvia em brigas, o infeliz que se metia com ele acabava muito mal. Geralmente ele emboscava os garotos mais velhos e mais fortes que ele, era impressionante a força que ele tinha, mas ao mesmo tempo seu irmão era um garoto que não tinha medo e nem emoções comuns a uma criança.
Havia muita raiva represada nesse cara de poucas palavras.
- Você me ouviu bem. – respondeu enfim. – Se tentar prejudicar minha mulher de novo, vai se dar mal.

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