No dia seguinte, Manuela mal tinha acordado quando recebeu um telefonema inesperado de Henrique, convidando-a para um encontro.
Manuela ainda estava sonolenta, sem vontade de conversar e quase desligou na hora, mas Henrique rapidamente disse: "Você e sua irmã mais velha já faz tempo que não se veem. Ela está com muita saudade de você e hoje, por acaso, está disponível. Então, por que não almoçamos todos juntos em família?"
Irmã mais velha? Família reunida?
Ao pensar em Clara, Manuela soltou um sorriso irônico. "Tudo bem."
Depois de desligar, já não conseguiu mais dormir e acabou se levantando.
Naquele momento, Lucas já estava trabalhando na empresa desde cedo, enquanto ela só agora se levantava, o que inevitavelmente chamava a atenção de todos.
No entanto, depois da lição dada por Laura naquele dia, ninguém mais se atrevia a comentar nada. Agora, qualquer um com um pouco de discernimento já tinha percebido que a Sra. Almeida era mesmo preguiçosa e fazia as coisas do jeito que queria, mas isso era porque a Velha Senhora e o Lucão sempre a mimavam. Não cabia a mais ninguém opinar.
Manuela só fez um lanche rápido em casa antes de sair. Quando chegou ao restaurante combinado, Henrique com a esposa e Clara já estavam lá.
"Manuela, aqui!"
Clara, ao vê-la, abriu um sorriso e acenou para ela, como se fossem mesmo irmãs muito próximas e afetuosas.
Manuela caminhou até eles com passos tranquilos, sem pressa.
"Por que demorou? Vai fazer a família inteira esperar só por você?" Henrique franziu a testa automaticamente, repreendendo-a.
Manuela puxou um leve sorriso. "Não gostou? Tudo bem, então estou indo embora."
Dizendo isso, realmente se virou para sair.
Clara mudou de expressão imediatamente e se apressou em levantar-se: "Papai estava com saudade, ficou chateado de ter que esperar, Manuela, não entenda mal."
Talvez para compensar o ocorrido, Henrique pegou o cardápio e começou a sugerir pratos: "Lembro que você sempre gostou de moqueca de enguia quando era pequena..."
Manuela olhou para ele, tomou um gole d’água e respondeu, com voz calma: "Desde os seis anos, quando quase morri engasgada com um osso, nunca mais comi."
O sorriso forçado de Henrique se desfez instantaneamente.
A mesa caiu em silêncio por um instante, até que Clara interveio para quebrar o clima constrangedor: "O pai sempre tão ocupado, muitas vezes nem estava em casa, talvez nem saiba disso."
Manuela: "Foi numa ceia de Ano-Novo, com a família reunida, que isso aconteceu."
O rosto de Henrique, que tinha acabado de se acalmar um pouco com a fala de Clara, voltou a alternar entre o pálido e o ruborizado.
Manuela observou aquilo, quase querendo rir. Se nem um evento tão grave na vida de sua própria filha ele conseguia lembrar, o que ainda se podia esperar de Henrique?

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