As quatro pessoas estavam reunidas ali.
Talvez porque Norberto chamava muita atenção, acabou atraindo o olhar de muitos curiosos.
Fiquei um pouco desconfortável com os olhares. Ao olhar para Antonella, vi a garota admirando Norberto com devoção no rosto. Ela parecia bem mais tranquila do que eu.
Eu sabia, essa era a segurança de quem é protegida.
— O Norberto disse que está quase na hora do almoço — O tom dela subiu no final da frase, com a inocência de uma jovem. — Ele quer me levar para comer no refeitório do hospital.
Gabriel me olhou confuso, depois virou-se para Antonella, que estava ao lado de Norberto, e perguntou: — Doutor Cavalcante, não vai apresentar a moça pra gente?
Norberto foi direto e breve: — Antonella, aluna da faculdade de medicina.
Antonella piscou os seus olhos parecidos com os de um cervo, olhou para o crachá no peito de Gabriel e disse: — Olá, Doutor Neves. Muito prazer, espero que possamos nos dar bem.
Gabriel assentiu com um sorriso sem graça. O seu olhar pousava no meu rosto a todo momento, quase transbordando compaixão.
— Noemia, por que você não come com a gente? — Antonella me fitou com sinceridade, depois se virou para Norberto e emendou: — Mais tarde, o Norberto vai me mostrar todo o Hospital Memorial e você pode ir junto.
A reverência nos olhos dela era escancarada, mas essa admiração de repente me machucou.
Eles só se conheciam há um mísero mês. Enquanto isso, eu fui a esposa que cuidou de Norberto durante três anos inteiros, e ele nunca me deixou nem botar os pés no setor de neurocirurgia.
E muito menos conhecer o resto do Hospital Memorial.
— Não, obrigada. — Eu recusei sem hesitação. Lancei um olhar a Norberto e disse: — Além disso, eu já conheço o Hospital Memorial como a palma da minha mão.
Ao terminar de falar, eu me virei e fui embora.
Eu não estava exagerando nem um pouco. Nos últimos três anos, além da faculdade e daquele apartamento, o lugar que eu mais visitei foi o Hospital Memorial.
No período em que eu estava mais ligada a ele, ia ao hospital quase dia sim, dia não. Eu sabia de cor e salteado em qual andar ficava cada setor, do primeiro ao quinto, se as portas do laboratório e da radiologia ficavam à direita ou à esquerda, quanto tempo demorava para ir do ambulatório até o setor de internação, e até em quais andares os elevadores ficavam mais cheios.
Eu imaginava que, um dia, quando Norberto mencionasse casualmente um detalhe, eu pudesse responder prontamente, evitando que o assunto morresse.
O irônico é que eu sempre me preocupava em desempenhar o papel de boa esposa e esqueci que o meu casamento com Norberto era, por essência, uma troca.
No cruzamento, Gabriel surgiu correndo de repente.
— Nesses dias nublados é difícil arrumar um táxi. Quer uma carona?
Ele segurava um guarda-chuva masculino, e com naturalidade o abriu sobre a minha cabeça. Talvez ele tenha corrido demais, a sua respiração estava ofegante.
— Não, obrigada. — Eu já tinha decorado a rota do metrô para voltar àquela casa.
Eu observei o endereço, refleti um pouco e saí pela porta.
Trinta minutos mais tarde, o garçom me conduziu a uma sala reservada. Com roupas finas, Dona Márcia levantou os cílios que havia acabado de aplicar e falou ríspida: — Não respondeu a nenhuma das mensagens. Está tão ocupada assim?
O cheiro forte do perfume invadiu as minhas narinas, e eu já fui direto ao ponto: — Qual é a urgência?
— Comprei para você quando estava dando uma volta hoje. — A minha mãe me passou uma sacola de luxo. — Vista isso hoje à noite.
Recebi a sacola com dúvida, mas assim que dei uma olhada, não sabia se ria ou chorava.
Era um conjunto de lingerie preta sexy.
— Os homens são assim, por mais conservadores que possam parecer, sempre gostam desse tipo de coisa. — Ignorando o meu incômodo, Dona Márcia instruiu: — Você não está no período fértil agora? Faça um esforço.
Senti uma pontada de humilhação. Tentei manter o rosto sério e retruquei: — Mãe, não tenho a intenção de ter filhos.
Logo depois de eu terminar a frase, o camarão empanado que Dona Márcia segurava a meio caminho caiu de imediato. Após uma rápida surpresa, ela se levantou rápido e deu um sorriso para as minhas costas: — Ah, o meu genro chegou.
Olhei para trás e de fato vi Norberto ali em pé.
Acontece que Dona Márcia também tinha convidado ele.

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