O ambiente mergulhou em um breve silêncio.
Segundos depois, Norberto se aproximou com passos lentos, olhou para Dona Helena e perguntou: — Já comeu?-
A sua voz soou calma, sem emoções no rosto. Não era possível decifrar se ele estava feliz ou irritado.
A minha sogra me lançou um olhar e elevou a voz: — Você acha que eu consigo comer numa situação dessas? Norberto, a sua esposa é demais. Em vez de ser uma boa Sra. Cavalcante, insiste em se candidatar no Hospital Memorial. O trabalho de médico já consome o dia e a noite. Desse jeito, a esperança minha e do seu pai de segurar um neto este ano com certeza vai tudo por ralo mais uma vez.
Este ano.
Pensei nessas duas palavras e senti uma amargura no peito.
Talvez a nossa atuação fosse tão boa que as duas famílias acreditavam que éramos um casal de verdade.
Eles só não sabiam que esse casamento falho já havia entrado em contagem regressiva.
— Diga alguma coisa, Norberto — disse a minha sogra ao notar que ele ficou em silêncio. Reclamou de novo: — Já se passaram três anos e sua barriga não dá nenhum sinal de gravidez. Como pode ser possível?
A insatisfação de Dona Helena já transbordava daquele rosto bem cuidado.
Norberto manteve o mesmo semblante calmo de sempre. Os seus olhos indiferentes varreram o meu rosto e ele falou: — Ligue para o departamento de Recursos Humanos daqui a pouco e cancele a prova escrita de amanhã.
Cancelar?
Então Norberto pensava o mesmo que Dona Helena?
Um imenso senso de decepção apertou o meu coração. O meu nariz ardeu de imediato e as lágrimas ameaçaram cair.
Ele havia se esquecido de que foi ele próprio quem preparou a pílula do dia seguinte para mim na noite passada?
— Por quê? — Só notei que a minha voz estava engasgada após falar.
Por que ele continuava a me prender sob o título de Sra. Cavalcante, se claramente não me considerava uma esposa?
— Você sabe — Norberto me olhou e falou com naturalidade: — O trabalho médico é muito ocupado.
Então ele queria que eu continuasse como antes, esperando o seu retorno todos os dias nesta casa aparentemente luxuosa, mas gelada?
— Tem outro motivo além do fato de que você não vai conseguir se concentrar na gravidez se passar o dia no hospital? — acrescentou Dona Helena. — Se quer a minha opinião, vou agendar uma consulta com um obstetra para você em um desses dias. Se for mesmo impossível conceber de forma natural, também dá para usar a tecnologia.
Muito tempo depois, vendo que eu permanecia em silêncio, ele levantou a cabeça devagar. A luz vinda de cima destacou os seus traços marcantes, fazendo-o parecer ainda mais imponente.
Apenas os seus olhos alongados ganharam, de repente, uma certa frieza.
Os seus lábios se abriram levemente, com um olhar altivo: — Você está com tanta pressa para entrar no Hospital Memorial a qualquer custo?
Eu devolvi a pergunta: — Você tem tanta aversão à minha ida ao Hospital Memorial?
Era compreensível. Afinal, lá era o território de Norberto. Se eu de fato trabalhasse no hospital, com o tempo, eu provavelmente iria atrapalhar a sua imagem de homem solteiro.
Afinal, o Doutor Cavalcante agora tinha alguém especial em mente.
Pensando nisso, eu acrescentei: — Mas o Doutor Cavalcante pode ficar tranquilo. Se por acaso nos esbarrarmos no hospital, eu vou fingir que não o conheço, assim como sempre fiz.
De qualquer forma, eu já havia dominado muito bem esse papel.
— Ah, é mesmo? Tanta ansiedade assim? — Um tom sarcástico saiu de sua boca, enquanto seus olhos varriam todo o meu corpo. — Você realmente quer usar a família Cavalcante como uma escada para subir na vida?

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