Vitório
O prédio de apartamentos tinha uma estrutura simples e uma fachada típica daquele bairro. O térreo era composto principalmente de lojas variadas e uma padaria.
Entrar naquele lugar sem ser visto foi um desafio, mesmo sendo tarde da noite.
A ligação de Ticiano chegou em mau momento, quando Vitório tentava despertar Lucila de um pesadelo que fez com que ela encharcasse suas roupas. Levou um tempo para sair de casa depois de ajudá-la com um banho relaxante e a promessa de que voltaria logo.
Ela disse que voltaria a dormir, e que ficaria bem. Entretanto, sabia que sua doce princesa estaria esperando por ele quando voltasse.
Tiago conseguiu uma passagem segura e longe dos olhares curiosos dos vizinhos, pelos fundos do prédio, perto de um beco cheio de entulhos. O que parecia uma entrada de serviço, não tinha sequer um elevador, então tiveram que subir as escadas, pois se usassem o elevador social, chamariam a atenção dos outros moradores.
Antes de chegarem ao décimo terceiro andar, Tiago se voltou para Ticiano.
- Relatou o que encontramos? – perguntou num tom estranho.
- Não, achei que você tinha enviado alguma coisa para ele.
- De que porra estão falando? – Vitório perguntou, sem paciência.
- Tem alguém dentro do apartamento. Está no chão da sala de estar, na mesma posição desde que meus homens chegaram. O infravermelho do sensor de presença do equipamento, está registrando queda de temperatura gradual.
- E o que estão esperando para abrir logo essa porta e ajudar essa vítima? – Vitório os olhou com um misto de raiva e frustração. – É óbvio que essa pessoa aí dentro está ferida!
O corredor era estreito e cheirava a cebola e tapeçaria velha. Todos se encolheram para chegar à porta do apartamento. Dois dos homens aguardavam em alerta, monitorando um equipamento pesado.
- Abra – ordenou Tiago.
Um deles assentiu, e com habilidade tirou um tipo de chave estranha do bolso que, em menos de dois segundos, deu acesso ao interior do apartamento de Astrid.
O lugar era bem decadente e velho, mas era possível ver que ela estava o usando. Louça na pia, garrafas de bebidas vazias, cinzeiro cheio e o odor predominante do cigarro.
A conversa confusa de Bianca lhe veio à cabeça, ela tinha uma expressão de adoração doentia quando esteve com DelaVille, o que levou Vitório a se arrepender de tentar usá-la para afastar aquele verme imundo de perto de Lucy.
- Essa moça foi só mais uma peça no jogo dela. A mente dela é tão confusa e suscetível ao engano que acreditaria em qualquer um que oferecesse a chance de ter aquilo que ela tanto almeja.
Os homens de Tiago a pegaram com cuidado, ela não tinha qualquer reação. Olhando para seu corpo franzino e cheio de marcas de navalha, ele compreendeu que poderiam estar diante de uma das primeiras vítimas daquele estuprador nojento.
Quando a levaram, ele ainda ficou alguns minutos olhando para a porta, e depois para o sangue no chão.
- Ela disse que teve um filho com o desgraçado. Mas não há certidão de nascimento ou qualquer outro documento que comprove que ela deu à luz a esse bebê.
- Acha que ela é delirante a esse ponto? – perguntou Ticiano, caminhando até uma mesa de escritório, no canto mal iluminado da sala.
- Pelo contrário. Acho que ela pode ser a verdadeira mãe daquela menina que Cintia DelaVille se negou a assumir.

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