Ponto de Vista de Kyle
A chave entra na ignição. Metal no metal. Aquele som específico da engenharia alemã de precisão. O motor liga — suave, quieto, aquela ronronada que custa mais do que o salário anual da maioria das pessoas.
Ajusto o espelho retrovisor.
No espelho, consigo ver as três crianças. Alexander está abraçando o elefante rosa. Madison já está com o cinto colocado — sempre a primeira a se prender. Ethan está olhando pela janela para algo que não consigo ver.
Mia abre a porta do passageiro. A luz interna acende. Aquele brilho amarelo suave que faz tudo parecer mais quente do que é.
Ela entra. O couro range levemente quando ela se acomoda no banco. A mão alcança o cinto — movimento automático, memória muscular — e ouço o clique quando ele trava.
A porta fecha. A luz some.
Deveria começar a dirigir.
Minha mão está na alavanca de câmbio. Pronta para colocar o carro em ré. Mas não estou me movendo ainda porque Mia está ajustando algo. O casaco. Está tirando. O tecido farfalhando. Os braços se contorcendo para trás.
O casaco sai. Ela o solta no colo. Por baixo está usando aquele suéter cinza. Aquele que é macio. Sei que é macio porque mais cedo, quando ela caiu em cima de mim nas folhas, quando meu braço estava em volta da cintura dela, meus dedos tinham pressionado contra aquele tecido.
Ela está se inclinando para frente agora. Ajustando a saída de ar. Direcionando-a para longe do rosto.
— Está quente demais? — pergunto. Quieto. Só para ela.
— Um pouco.
A voz dela está cansada. Não o cansaço performático que as pessoas fazem. Cansaço de verdade. O tipo que se instala nos ossos.
Diminuo a temperatura. Dois graus. Depois mais dois.
— Melhorou?
— Sim. Obrigada.
Ela se recosta. A cabeça encontra o encosto. Inclina levemente para trás. Os olhos fecham por um segundo. Depois abrem. Está olhando direto para frente, através do para-brisa, para o letreiro do Tony's. Neon vermelho. Piscando levemente do lado esquerdo.
Deveria dirigir.
Coloco o carro em ré. Verifico todos os espelhos — retrovisor, os dois laterais. A mão no encosto do banco dela enquanto me viro para olhar por cima do ombro.
O estacionamento está quase vazio agora. Só alguns carros espalhados pelas vagas. Uma caminhonete no canto mais distante.
Saio de ré. Suave. Devagar. O tipo de lentidão que não sacode os passageiros.
— PAPAI! — A voz de Alexander explode do banco de trás. — VOCÊ VIU COMO GANHOU O ELEFANTE RÁPIDO?
— Alexander — diz Mia. Sem volume. Só o nome dele. Mas com aviso dentro.
— O quê?
— Voz de dentro.
— ESSA É A MINHA VOZ DE DENTRO!
— Mais baixinha.
— Quanto mais baixinha?
— Pela metade.
Alexander bufa. Dramático. Mas quando fala de novo, o volume caiu. — Você viu, né? Uma ficha! UMA! Isso é tipo… é tipo mágica!
— Ou habilidade — observa Ethan do banco de janela.
— Ou SORTE! — contra-argumenta Alexander.
— Sorte é só probabilidade encontrando preparação — diz Ethan.
— Que isso quer dizer?
Estou saindo do estacionamento agora. Para a rua principal. O semáforo à frente está verde mas virando amarelo enquanto nos aproximamos. Reduzo a velocidade. Deixo virar vermelho. Paro suavemente.
No banco do passageiro, a cabeça de Mia inclinou para o lado. Só um pouco. Em direção à janela. Os olhos ainda estão abertos. Mas mal.
O sinal fica verde.
Acelero. Gentil. O tipo de aceleração que não te empurra para trás no banco. Que não se anuncia.
— Papai? — A voz de Madison. Mais quieta que a de Alexander. Sempre mais quieta.
— Sim, meu amor?
— Posso dormir com o elefante hoje à noite?
— Claro.
— E se for grande demais para a minha cama?
— Então o elefante dorme no chão do lado da sua cama.
Ela considera isso. Consigo vê-la no espelho. O rostinho sério. Pensando bem.
— Tá bom — ela decide. — É justo.
Mia se mexe no banco do passageiro. A mão sobe. Toca o rosto. Os dedos pressionando a têmpora como se estivesse tentando afastar uma dor de cabeça.
— Você está bem? — pergunto. Quieto. Só para ela.
— Mhm.
Não é bem uma resposta.
Pego a próxima curva. Há dois caminhos para chegar ao apartamento dela daqui. A rodovia é mais rápida. Quinze minutos contra vinte e três pelas ruas. Mas a rodovia tem buracos. Obras. Trechos irregulares que tornam o percurso menos suave.
Pego as ruas.
O carro desliza pela esquina. Suspensão premium. Tudo de primeira. É por isso que se paga mais. Pela viagem que não se anuncia. Que não sacode. Que simplesmente te leva do ponto A ao ponto B como se você estivesse flutuando.
Aceno com a cabeça.
— Ah. — Abaixa ainda mais a voz. Quase inaudível agora. — Tá bom.
Madison também percebeu. Está se inclinando para frente tanto quanto o cinto permite.
— Mamãe está bem? — ela sussurra.
— Está cansada — digo. Quieto. Combinando com o sussurro deles. — Só isso.
Dirigimos em quase silêncio depois disso. Só o som do motor. Os pneus no asfalto. O ocasional sussurro do banco de trás que é calado imediatamente.
Um sinal vermelho à frente. Reduzo a velocidade ainda antes do necessário. Deixando o carro desacelerar naturalmente. Sem pressão no freio até o final. Depois só o toque mais leve para parar completamente.
Mia não se mexe.
Linda.
Ela é linda.
Sempre foi. Mas especialmente assim. Simplesmente dormindo no banco do passageiro com a bochecha quase tocando a janela.
Estamos na rua dela agora. Dois quarteirões do prédio. O caminho familiar. Aquele que percorri dezenas de vezes nas últimas semanas.
Aquele que percorri obsessivamente por quatro anos antes disso. Observando de longe. Garantindo que estivessem seguros. Nunca deixando eles me verem.
Entro na garagem. A curva familiar. Descendo a rampa. O som dos pneus muda. Asfalto para concreto. O eco diferente.
Mia não acorda.
Encontro uma vaga perto do elevador. Entro. Coloco o carro em ponto morto. O motor ronrona por um momento antes de eu desligá-lo.
E a respiração de Mia. Suave. Constante.
Fico sentado ali. As duas mãos ainda no volante. Olhando para ela.
O suéter dela deslocou levemente. Não sei quando aconteceu. Durante o percurso talvez. Quando ela se movia enquanto dormia. A barra subiu de um lado. Não muito. Talvez um centímetro. Talvez dois.
Mas o suficiente para ver pele. A pele logo acima das calças. Aquele espaço onde fica o osso do quadril. Onde o cós do jeans fica.
E há linhas.
Estrias.
— Papai? — O sussurro de Alexander corta tudo.
Olho para cima. Encontro os olhos dele no espelho.
— A barriga da Mamãe tem linhas — diz ele. Ainda sussurrando, mas querendo falar sobre isso. — Você viu?
— Eu vi.
— Ela diz… — Ele pausa. Pensando. — …ela diz que essas são as cicatrizes favoritas dela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Indesejada e Seus Gêmeos Secretos
Excelente livro, uma delicia de ler e o mlhor o livro esta completo...
Não quero acreditar que Mia vai voltar com Kyle! E Thomas? Thomas e Sophie? E a relação tranquila que Mia desenvolveu com Thomas quando Kyle simplesmente sumiu?...
Desculpe, mas cadê os capítulos do 266 até 279? Simplesmente não existem?...
Ela tem e que sofre mas nunca vi mulher mas burra...