Entrei na escola para trabalhar com passos decididos. As mãos iam instintivamente ao ventre, num gesto inconsciente de proteção. Vinte semanas e eu não podia mais esconder aquela verdade.
Antes da primeira aula eu precisava procurar Elena. Precisava contar a ela. Eu conhecia esse mundo. Sabia como as coisas funcionavam. Eu era uma professora recém-contratada e estava grávida.
Sabia que estava em maus lençóis. Não podia mais esconder a gravidez e também não podia ficar desempregada. Não agora que tinha um filho para sustentar.
Eu tinha quase cem por cento de certeza que Elena iria me demitir. A minha esperança, era que ela fosse piedosa e me indicasse algum emprego, mesmo freelancer.
Enquanto caminhava pelo corredor principal, meus pensamentos se atropelavam. A imagem de Adriano vinha e ia como uma maré que eu insistia em conter. Mas eu não podia contar com ele. Não agora. Talvez nunca.
O que importava era aquele pequeno coração que batia dentro de mim e que, em poucos meses, dependeria exclusivamente de mim para tudo: abrigo, comida, proteção. Eu precisava garantir que ele não passasse fome, que tivesse dignidade. Mesmo sendo filho de um homem que jamais soube o que é faltar pão, meu filho teria, pelo menos por enquanto, apenas a mim.
Pisquei várias vezes diante da porta da sala de Elena. Bati duas vezes, sentindo o coração acelerar.
Entrei.
Elena estava de pé, ao lado da mesa, organizando alguns papéis dentro de uma pasta grande de couro. Parecia concentrada, mas levantou o olhar assim que me viu.
— Marja, bom dia — disse com aquele tom sempre acolhedor. — Aconteceu alguma coisa?
Fechei a porta atrás de mim. Por um segundo, as palavras ficaram presas na garganta. Eu tinha ensaiado mentalmente o que diria, mas agora tudo parecia confuso demais.
— Elena… eu preciso conversar com você.
Ela sorriu de leve, mas havia pressa em seus gestos.
— Eu imagino — respondeu. — Mas, infelizmente, estou saindo agora. Tenho uma reunião na Secretaria de Educação. É algo que não posso adiar.
Meu estômago se contraiu. Um nó apertou meu peito.
Ela fechou a pasta e segurou a alça da bolsa, aproximando-se de mim com expressão sincera.
— Eu prometo que vamos conversar com calma. Quando eu voltar, passarei direto na sua sala, está bem?
— Quando… quando você volta? — perguntei, odiando o tremor na minha voz.
— No início da tarde, se tudo correr bem — respondeu. — Não se preocupe.
Mas eu me preocupava.
Assenti com a cabeça, tentando sorrir, tentando parecer normal. Elena tocou meu braço de leve, num gesto quase maternal.
— Fique tranquila, Marja. Seja lá o que for, nós resolvemos.
Ela saiu apressada, os passos ecoando pelo corredor. Fiquei sozinha na sala por alguns segundos, olhando para a porta fechada, sentindo um vazio crescer dentro de mim.
Assim que voltei para o corredor, o som distante de vozes começou a surgir. Os primeiros alunos chegavam, acompanhados de pais, motoristas, cuidadores. A escola despertava, e eu precisava despertar junto com ela.
Mas algo dentro de mim dizia que aquele adiamento não era bom sinal.
Caminhei até o banheiro e me apoiei na pia, encarando meu reflexo no espelho.
Molhei o rosto, respirei fundo e segui para a sala. As aulas começaram como sempre. Sentei-me no pátio com os alunos, formando o círculo habitual. As mãos se moviam, os sinais fluíam, e por alguns momentos eu quase consegui esquecer tudo o que me aguardava.
Quase.
***
Meu coração deu um salto quando a secretária disse que Elena queria falar comigo.
Caminhei pelo corredor longo da instituição sentindo o chão frio sob os meus pés, mesmo usando sapatos fechados.
Quando cheguei à porta da diretoria, respirei fundo antes de bater. Elena respondeu com aquele “entre” firme e tranquilo que sempre me deu uma estranha sensação de acolhimento. Abri a porta devagar.
Ela estava sentada atrás da mesa. Levantou os olhos e sorriu de leve.
— Sente-se, Marja — disse ela, apontando para a cadeira à minha frente.
Sentei-me com cuidado, ajeitando a bolsa no colo, como se aquilo pudesse esconder a barriga que já não se escondia mais de ninguém. Por um segundo, pensei em adiar, em inventar qualquer desculpa. Mas eu sabia: se não falasse naquele momento, talvez nunca mais tivesse coragem.
Senti um nó na garganta. A história dela começava a se misturar perigosamente com a minha.
— Eu lutei por um tempo — disse Elena. — Mas cansei e um dia resolvi abandonar tudo. Fui embora da cidade.
Ela fez uma pausa.
— Às vezes, Marja, eu me pergunto como teria sido se eu tivesse ficado.
Meu coração batia forte. Cada palavra dela parecia um aviso e um consolo ao mesmo tempo.
— Não sou a pessoa mais indicada para te dar conselhos. Mas faça o que manda o seu coração. E cuide bem desse bebê que está dentro de você.
Senti as lágrimas escorrerem sem pedir licença.
— Quanto ao emprego… — Elena continuou. — Você não será demitida.
Levantei a cabeça num salto.
— Não… não vou? — perguntei, quase sem acreditar.
Ela sorriu.
— Não. Vou fazer vistas grossas. Vamos ajustar horários quando for necessário, e tudo ficará bem. Aqui nós lidamos com crianças que enfrentam desafios enormes todos os dias. Seria incoerente não ter empatia com uma professora que também enfrenta os seus.
— Mas não estou lhe fazendo nenhum favor. Faço isso por você ser uma boa profissional e estar se desenvolvendo muito bem.
O alívio foi tão grande que minhas pernas ficaram bambas.
— Obrigada — consegui dizer, a voz embargada. — Eu não sei nem como agradecer.
— Agradeça cuidando de você e desse bebê — respondeu Elena.
Saí da sala da diretoria com o coração estranhamente aquecido. Eu não tinha perdido o emprego. Não estava sozinha.

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