Cheguei em casa no fim da tarde com os pés doendo e a cabeça ainda mais cansada que o corpo. Fechei a porta atrás de mim com cuidado e larguei a bolsa sobre a mesa da sala.
A palavra gravidez ainda soava estranha dentro de mim, como um idioma que eu entendia, mas não dominava. Tirei os sapatos devagar e caminhei até o sofá. Sentei-me, sentindo o estofado afundar sob o meu peso, e deixei o corpo escorregar um pouco para trás.
Acabei cochilando no sofá sem perceber, o corpo vencido mais pelo excesso de pensamentos do que pelo cansaço físico.
De repente, meu telefone toca, me despertando. Atendi sem olhar o visor, ainda zonza, achando que poderia ser Elena.
— Alô?
Do outro lado da linha, um silêncio curto, contido. E então uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.
— Marja… sou eu. Adriano.
Meu coração falhou. Ou talvez tenha batido rápido demais, a ponto de doer. Sentei-me imediatamente, apoiando os pés no chão, como se precisasse me ancorar para não ser levada por aquela simples palavra: eu.
— Oi — respondi, tentando manter a voz firme, neutra. — Oi, Adriano.
Houve outra pausa. Eu podia imaginá-lo respirando do outro lado, escolhendo palavras, talvez arrependendo-se de ter ligado. A voz dele veio baixa, menos segura do que eu lembrava.
— Eu… só queria saber como você está.
Fechei os olhos por um segundo. Como eu estava? Grávida. Confusa. Ferida. Cheia de saudade. Assustada.
Mas nenhuma dessas respostas cabia ali.
— Estou bem — falei com delicadeza. — Estou trabalhando, me ajustando às coisas.
— Que bom… — ele disse, e havia alívio naquela palavra simples. — Fico contente em ouvir isso.
Apertei o telefone contra a orelha, sentindo um nó se formar na garganta. Não era justo como aquela voz ainda tinha poder sobre mim. Respirei fundo e mudei o rumo da conversa, buscando um terreno menos perigoso.
— E a Cecília? — perguntei. — Como ela está?
O nome da filha dele pareceu acender algo do outro lado da linha.
— Está bem melhor… melhor a cada dia.
— Então, ela não teve mais febre, depois daquele dia?
— Febre não. Mas ela está um pouco triste.
Meu peito apertou. O que Adriano pretendia me dizendo aquelas coisas? Me fazer sofrer ainda mais?
— Eu sinto tanta saudade dela — confessei, sem conseguir evitar.
— Ela sente sua falta também — ele disse. A voz saiu mais grave, carregada. — Dá para perceber nas atitudes diárias dela.
O silêncio se instalou entre nós, pesado, cheio de coisas que queriam ser ditas e não encontravam passagem. Eu escutava a respiração dele. Ele, talvez, escutasse a minha. Era estranho como aquele silêncio dizia mais do que qualquer frase.
Depois de alguns segundos, Adriano falou de novo, como quem precisa se agarrar a algo concreto.
— Mundico perguntou de você esses dias. Quitéria também… e a Benedita. Eles… eles sentem sua falta.
Engoli em seco.
— Mande um abraço para eles — respondi. — Diga que também sinto saudade. De todos.
— Eu digo.
— Seu pai ligou — murmurei, sentindo uma mistura estranha de ternura e dor.
E naquele momento recordei os dias na casa de praia.
A lembrança veio inteira, sem pedir licença: O jeito como Adriano me olhava ali era diferente do homem duro da fazenda. Ali, ele parecia mais humano, mais exposto, como se o mar tivesse arrancado dele alguma armadura antiga.
Lembrei-me do primeiro toque, hesitante, como se ambos soubéssemos que estávamos cruzando uma linha invisível. E lembrei-me, com uma clareza que agora me deixava sem ar, de que não houve prevenção alguma.
Naquela noite — naquelas noites — não pensamos em consequências. Não falamos sobre limites, nem sobre cuidados. Foi tudo urgente, intenso, como se o tempo estivesse contra nós. Fizemos amor como quem tenta esquecer o mundo e, ao mesmo tempo, se agarrar a algo que pudesse salvar.
Na época, eu nem considerei essa possibilidade. Nunca passou pela minha cabeça que uma gravidez pudesse acontecer. Engano meu.
Olhei para a minha barriga novamente. Lembrei-me de quantas vezes, nas últimas semanas, eu havia reclamado de inchaço. Atribuí à comida da escola, ao estresse, às mudanças na rotina. Lembrei-me de ter soltado um comentário casual para mim mesma diante do espelho: “Devo estar retendo líquido”.
A notícia ainda era recente demais. Eu ainda não sabia o que fazer com ela, nem com tudo o que ela implicava. Não sabia se procuraria um médico imediatamente, se mudaria meus planos outra vez.
Fechei os olhos e deixei que o silêncio da casa me envolvesse. Havia apenas perguntas, medos e uma realidade nova se formando dentro de mim, mas nenhuma resposta provável.
Pensei em Adriano, sozinho naquela casa grande, talvez sentado no escuro, talvez segurando um copo de bebida, sofrendo por Antonella.
E pensei em mim.
No que estava por vir. No que eu ainda teria coragem de enfrentar. No segredo que crescia dentro de mim, ligando meu destino ao dele de uma forma que nenhum de nós havia planejado.
Pisquei, deixando que uma lágrima escapasse, silenciosa.
Eu ainda tinha muitas dúvidas sobre o que fazer a partir daquele momento. Mas uma coisa eu tinha certeza: eu não queria um homem que sofria por outra mulher.

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