Voltar para minha cidade foi estranho. Muito estranho.
O ônibus parou com um solavanco leve, e o chiado dos freios cortou o ar da manhã como uma lâmina fina. Eu demorei alguns segundos para me levantar, com o coração batendo devagar demais para alguém que estava voltando para casa.
Levantei por fim e desci os degraus do ônibus com cuidado. Quando meus pés tocaram o chão da rodoviária da minha cidade, senti uma vertigem leve, uma tontura rápida, quase imperceptível, mas suficiente para me obrigar a parar por um instante.
O cheiro de diesel, junto com o burburinho de vozes misturadas e o anúncio metálico ecoando nos alto-falantes, me deu um mal-estar repentino.
Eu olhei ao redor devagar, como se estivesse entrando em um lugar que não me pertencia mais. Era a mesma rodoviária. Mas parecia que tudo havia acontecido numa outra vida.
Meu peito apertou com uma lembrança que veio sem pedir licença. Na noite em que fui embora foi também o dia em que enterrei a minha mãe. Eu não me despedi de ninguém. Não olhei para trás. Apena fugi.
E agora eu estava parada exatamente no mesmo lugar. Eu tinha voltado.
Saí da área coberta da rodoviária e fui até a calçada. O trânsito seguia apressado, carros buzinando, motos costurando entre eles. Uma sensação estranha se espalhou pelo meu corpo. Não era exatamente tristeza. Nem exatamente medo. Era deslocamento. Como se eu estivesse entrando numa história que já tinha sido escrita sem mim.
Ajustei a alça da bolsa no ombro e murmurei quase sem voz:
— Essa é a minha vida…
As palavras saíram frágeis. Eu olhei novamente ao redor. Essa é a minha vida. A vida que sempre tive. Preciso me acostumar novamente.
Eu fui embora, sobrevivi, aprendi. Mas eu estava tão assustada! Me sentindo tão sozinha!
E naquele momento, no meu romantismo exagerado e fora da realidade, imaginei que Adriano arrependido, tivesse vindo atrás de mim. Ele então, gritaria meu nome e eu correria para os braços dele. Mas ele não veio.
Pisquei várias vezes para impedir as lágrimas de cair e chamei um taxi.
***
A chave girou na fechadura com um estalo seco, e aquele som simples me atravessou inteira. Empurrei a porta devagar, como se a casa pudesse se assustar com a minha chegada depois de tanto tempo. Quando entrei, deixei minha bagagem encostada na parede da sala e fui direto para a cozinha.
***
Quando acordei meu primeiro pensamento foi saber onde estava. Depois comecei a lembra-me de tudo. Do enjoo, dos vômitos e do desmaio. Ergui o corpo e sentei no chão, no escuro, com a cabeça latejando de dor. Em seguida fui me arrastando em direção à varanda, pois estava me sentindo sufocada dentro de casa. Quando abri a porta e senti o vento no rosto, foi como um presente do céu.
A varanda era pequena, do jeito que sempre foi. Dava para a rua tranquila, onde a vida seguia num ritmo que eu quase tinha esquecido. Quantas tardes sentei ali com a minha mãe, conversando sobre coisas simples, reclamando do calor, observando os vizinhos passarem?
Fiquei ali por um bom tempo, até me sentir melhor, depois entrei e fui direto para o meu antigo quarto. Acendi a luz e abri a janela. Em seguida deitei na cama e encarei o teto, observando uma pequena mancha antiga que eu lembrava desde menina. Sorri de leve. Algumas coisas resistem ao tempo.
Naquele momento comecei a pensar em tantas coisas.
Com Gino preso, eu não precisava mais ter medo. Essa frase ecoava na minha cabeça como um mantra. Eu não precisava trancar portas com o coração acelerado. Não precisava olhar para trás na rua. Não precisava imaginar passos que não existiam. E nunca mais precisaria fugir apressada sem saber para onde ir.
Pensei também no dinheiro que eu tinha guardado; o que ganhei durante aqueles meses na casa de Adriano. Ele me pagava bem e era suficiente para me manter por algum tempo: pagar contas, comprar comida, respirar sem pânico. Era um alívio concreto. Eu não dependia de ninguém naquele instante. Isso me dava uma sensação estranha de força e liberdade.
E eu iria conseguir sobreviver. Tinha certeza que sim.

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