Adriano me encarou por um tempo longo demais. Entrei na cozinha ainda sentindo o peso da surpresa, como se tivesse sido pega em flagrante por algo que eu mesma não sabia explicar.
Eu estava arrumada demais para quem tinha decidido ficar em casa: o vestido curto colando no meu corpo, as botas batendo forte no chão, o cabelo solto caindo sobre os ombros, a maquiagem intacta.
Adriano estava ali. De verdade. Não como uma lembrança insistente ou uma ausência barulhenta, mas ali, ocupando espaço, apoiado na bancada como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo.
— Por que você ainda está aqui? — ele perguntou.
Demorei um segundo a responder. Cruzei os braços, mais para me proteger do que por qualquer outra razão.
— Cecília não quis ir. Ela já está dormindo.
Ele me observou por alguns instantes. Desceu o olhar para as minhas roupas, me estudando, me avaliando. Depois disse, com simplicidade:
— Benedita ainda está na casa.
Antes que eu pudesse reagir, ele se virou e caminhou até a escada.
— Benedita! — chamou, com a voz firme que ecoava fácil pelos corredores.
Voltou para a cozinha enquanto eu permanecia parada, o coração acelerado, uma sensação estranha se formando no estômago.
Benedita apareceu logo em seguida, ajeitando o vestido.
— Pois não, seu Adriano?
— Cecília já dormiu. Preciso que você fique de olho nela esta noite.
Benedita concordou sem fazer perguntas.
— Pode deixar.
Foi então que Adriano se virou para mim. Sem dizer nada, segurou meu braço — firme, mas não rude — e me conduziu em direção à porta. O gesto foi tão inesperado que eu apenas acompanhei, sentindo o calor da mão dele atravessar o tecido fino do vestido.
— Se já está pronta, então vamos. — disse apenas. Não como uma ordem, mas como uma constatação.
Observei em silêncio, sentindo uma pontada suave no peito — não de dor, mas de reconhecimento. Aquela canção falava de encontros improváveis, de amores que chegam sem pedir licença. Parecia ser Adriano e eu protagonizando aquela música. Eu nunca tinha percebido que gostava de melodias que falavam de “sofrência”.
Foi então que percebi Jana.
Ela estava dançando com um homem que eu não conhecia. Ele tinha estatura mediana, usava chapéu, parecia rir de algo que ela dizia. Jana estava solta, os olhos brilhando, o corpo leve. Senti uma alegria imediata ao vê-la assim.
Quando a música terminou, Jana me viu e abriu um sorriso enorme. De lá mesmo o homem se despediu. Ela veio ao meu encontro.
— Eu achei que você não vinha! — disse, me abraçando.
— Eu também achei — respondi, rindo.
— Vem. Hoje a gente vai aproveitar do nosso jeito.
E foi exatamente isso que fizemos.
Ali, entre risos e luzes, senti algo se arrumar dentro de mim. Talvez fosse só a festa. Talvez fosse mais do que isso. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não pensei no que viria depois.

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