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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 61

O garçom nos serviu e se afastou. Jana, ao meu lado, estava com o olhar que era pura curiosidade.

— Vem cá — ela disse de repente, já se levantando. — Vamos ali no balcão.

Antes que eu pudesse protestar, ela pegou o copo dela, o meu também, e fez um gesto rápido com a cabeça, daqueles que não aceitam recusa. Olhei para Cecília.

— Fica aqui, meu amor — falei baixo, apontando para o copo dela. — Já volto.

Seguimos até o balcão da lanchonete. O tampo estava um pouco grudento, cheirando a açúcar e café velho. Jana apoiou os cotovelos ali, me encarou de lado, um sorriso que eu conhecia desde a adolescência surgindo lentamente no canto da boca. Um sorriso perigoso.

— Então — ela começou dando um gole no suco — vamos falar dele.

— De quem? — disfarcei, já sabendo que era inútil.

— Do seu patrão — ela disse, sem rodeios. — Do Adriano.

Suspirei, apoiando o copo no balcão.

— Jana, não começa.

— Marja… — ela riu de leve. — Eu não sou cega. Aquele homem é um gostosão. E você fica toda diferente quando ele entra no ambiente. E então, o que está rolando entre vocês?

— Não está rolando nada — menti, rápido demais.

— Fala de uma vez! — Jana ordenou naquele jeito que só ela tinha.

Balancei a cabeça, tentando afastar a conversa. Mas algo em mim já estava cansado de fingir; talvez fosse o ambiente longe da fazenda, talvez fosse a presença dela, minha amiga de tantos anos, a única que conhecia minhas versões antigas, frágeis, sonhadoras.

— Ele é… complicado.

— Todo homem interessante é — Jana deu de ombros. — Mas você não respondeu: existe ou não existe alguma coisa?

— Não! — tentei ser convincente.

Ela estreitou os olhos, apoiou o queixo na mão.

— Marja… — disse num tom mais baixo —, você sempre foi péssima mentindo para mim.

Fiquei em silêncio. Olhei para frente, para o espelho atrás do balcão, que refletia meu rosto. Vi meus próprios olhos desviando dos dela.

— Tá — Jana suspirou. — Vou facilitar. Você está apaixonada por ele?

A frase ficou suspensa no ar entre nós, pesada, impossível de ignorar. Senti um nó subir pela garganta. Meu primeiro impulso foi negar outra vez, mas o cansaço venceu.

— Estou muito apaixonada por ele. — Admiti, quase num sussurro.

Ela não comemorou. Não sorriu. Apenas assentiu lentamente, como quem confirma algo que já sabia.

— Não era para nada disso acontecer. Eu só queria o emprego.

— E… — Jana retomou, escolhendo as palavras — aconteceu só isso? Ou aconteceu mais?

Meu corpo reagiu antes da minha mente. Senti o calor subir pelo rosto, as mãos ficando frias. Não respondi.

Ela arregalou os olhos, abriu um sorriso curto, meio incrédulo.

— Amiga… — disse devagar — já entendi tudo. Sua virgindade já foi. E já era tempo de ir mesmo.

— Jana! — protestei, mas não havia força nenhuma na minha voz.

Ela riu, mas logo o riso morreu. O olhar dela mudou, ficou sério, atento.

— Ei — ela tocou meu braço. — Estou brincando, mas agora falando sério… eu percebi como ele olha para você também.

— Percebeu errado. Ele não está apaixonado por mim.

— Por que? O que está acontecendo de verdade?

— Eu conheço bem o meu padrasto; ele não gosta de perder. Quando as coisas não saem como ele quer, dá sempre um jeito de se vingar buscando uma reviravolta. Eu tenho medo dele, Jana.

— Mas não se preocupe. Aqui ele não pode te fazer mal — Jana falou com convicção.

Mas as palavras de Jana não conseguiram me acalmar. Senti algo estranho dentro de mim: um medo profundo; como uma premonição.

Terminamos os sucos, pagamos a conta e voltamos para a mesa. Cecília ergueu o olhar quando nos aproximamos. Passei a mão pelos cabelos dela, um gesto automático de cuidado.

No caminho de volta para a fazenda, Cecília observava a paisagem, os olhos atentos aos animais, às cercas, ao céu aberto. Eu observava Jana que havia ficado em silêncio por um tempo incomum. Finalmente ela disse:

— A festa do aniversário da cidade começa daqui a dois dias, não é?

Meu coração deu um pequeno salto.

— É.

— Eu posso… — ela respirou fundo — ficar até depois da festa. Se você quiser.

Olhei para ela rapidamente, surpresa.

— Claro que quero.

— Honestamente, uma última festa antes de mudar de país parece um bom jeito de fechar um ciclo — Jana falou.

Sorri de contentamento, enquanto ouvia ela dizer:

— Está decidido: só vou embora depois da festa.

Levantamos as mãos e batemos uma na outra. Era o nosso jeito de comemorar algo bom.

O SUV seguiu pela estrada de terra, levantando poeira. À frente, a fazenda começava a aparecer no horizonte.

***

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