O garçom nos serviu e se afastou. Jana, ao meu lado, estava com o olhar que era pura curiosidade.
— Vem cá — ela disse de repente, já se levantando. — Vamos ali no balcão.
Antes que eu pudesse protestar, ela pegou o copo dela, o meu também, e fez um gesto rápido com a cabeça, daqueles que não aceitam recusa. Olhei para Cecília.
— Fica aqui, meu amor — falei baixo, apontando para o copo dela. — Já volto.
Seguimos até o balcão da lanchonete. O tampo estava um pouco grudento, cheirando a açúcar e café velho. Jana apoiou os cotovelos ali, me encarou de lado, um sorriso que eu conhecia desde a adolescência surgindo lentamente no canto da boca. Um sorriso perigoso.
— Então — ela começou dando um gole no suco — vamos falar dele.
— De quem? — disfarcei, já sabendo que era inútil.
— Do seu patrão — ela disse, sem rodeios. — Do Adriano.
Suspirei, apoiando o copo no balcão.
— Jana, não começa.
— Marja… — ela riu de leve. — Eu não sou cega. Aquele homem é um gostosão. E você fica toda diferente quando ele entra no ambiente. E então, o que está rolando entre vocês?
— Não está rolando nada — menti, rápido demais.
— Fala de uma vez! — Jana ordenou naquele jeito que só ela tinha.
Balancei a cabeça, tentando afastar a conversa. Mas algo em mim já estava cansado de fingir; talvez fosse o ambiente longe da fazenda, talvez fosse a presença dela, minha amiga de tantos anos, a única que conhecia minhas versões antigas, frágeis, sonhadoras.
— Ele é… complicado.
— Todo homem interessante é — Jana deu de ombros. — Mas você não respondeu: existe ou não existe alguma coisa?
— Não! — tentei ser convincente.
Ela estreitou os olhos, apoiou o queixo na mão.
— Marja… — disse num tom mais baixo —, você sempre foi péssima mentindo para mim.
Fiquei em silêncio. Olhei para frente, para o espelho atrás do balcão, que refletia meu rosto. Vi meus próprios olhos desviando dos dela.
— Tá — Jana suspirou. — Vou facilitar. Você está apaixonada por ele?
A frase ficou suspensa no ar entre nós, pesada, impossível de ignorar. Senti um nó subir pela garganta. Meu primeiro impulso foi negar outra vez, mas o cansaço venceu.
— Estou muito apaixonada por ele. — Admiti, quase num sussurro.
Ela não comemorou. Não sorriu. Apenas assentiu lentamente, como quem confirma algo que já sabia.
— Não era para nada disso acontecer. Eu só queria o emprego.
— E… — Jana retomou, escolhendo as palavras — aconteceu só isso? Ou aconteceu mais?
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Senti o calor subir pelo rosto, as mãos ficando frias. Não respondi.
Ela arregalou os olhos, abriu um sorriso curto, meio incrédulo.
— Amiga… — disse devagar — já entendi tudo. Sua virgindade já foi. E já era tempo de ir mesmo.
— Jana! — protestei, mas não havia força nenhuma na minha voz.
Ela riu, mas logo o riso morreu. O olhar dela mudou, ficou sério, atento.
— Ei — ela tocou meu braço. — Estou brincando, mas agora falando sério… eu percebi como ele olha para você também.
— Percebeu errado. Ele não está apaixonado por mim.
— Por que? O que está acontecendo de verdade?
— Eu conheço bem o meu padrasto; ele não gosta de perder. Quando as coisas não saem como ele quer, dá sempre um jeito de se vingar buscando uma reviravolta. Eu tenho medo dele, Jana.
— Mas não se preocupe. Aqui ele não pode te fazer mal — Jana falou com convicção.
Mas as palavras de Jana não conseguiram me acalmar. Senti algo estranho dentro de mim: um medo profundo; como uma premonição.
Terminamos os sucos, pagamos a conta e voltamos para a mesa. Cecília ergueu o olhar quando nos aproximamos. Passei a mão pelos cabelos dela, um gesto automático de cuidado.
No caminho de volta para a fazenda, Cecília observava a paisagem, os olhos atentos aos animais, às cercas, ao céu aberto. Eu observava Jana que havia ficado em silêncio por um tempo incomum. Finalmente ela disse:
— A festa do aniversário da cidade começa daqui a dois dias, não é?
Meu coração deu um pequeno salto.
— É.
— Eu posso… — ela respirou fundo — ficar até depois da festa. Se você quiser.
Olhei para ela rapidamente, surpresa.
— Claro que quero.
— Honestamente, uma última festa antes de mudar de país parece um bom jeito de fechar um ciclo — Jana falou.
Sorri de contentamento, enquanto ouvia ela dizer:
— Está decidido: só vou embora depois da festa.
Levantamos as mãos e batemos uma na outra. Era o nosso jeito de comemorar algo bom.
O SUV seguiu pela estrada de terra, levantando poeira. À frente, a fazenda começava a aparecer no horizonte.
***

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