Depois que nos levantamos do chão, eu simplesmente não consegui aceitar a ideia de Jana ir embora naquele mesmo dia. Caminhamos em direção ao casarão devagar e, antes mesmo de pensar direito, eu já estava falando.
— Fica, Jana — disse, parando no meio do caminho. — Pelo menos esta noite. Por favor.
Jana me olhou surpresa, os olhos atentos, como se estivesse medindo o peso daquele pedido.
— Marja, eu não quero atrapalhar…
— Você não atrapalha — interrompi. — Nunca atrapalhou.
— Tem certeza? — ela perguntou.
Respondi com um sorriso.
Houve um segundo de hesitação, e então ela sorriu daquele jeito que sempre desarmava tudo em mim.
— Tá bem. Eu fico.
Assim que chegamos ao casarão, procurei Mundico. Ele estava no corredor lateral, carregando algumas ferramentas, e ergueu a cabeça quando me viu.
— Mundico, será que você pode me ajudar? — perguntei.
— Pois não, menina.
Expliquei rapidamente que uma amiga minha dormiria ali naquela noite e pedi que providenciasse uma cama para ficar no meu quarto e não ocupar outro aposento da casa. Ele assentiu sem questionar, com aquela eficiência silenciosa que parecia fazer parte dele.
— Dou um jeito agora mesmo. Só vou terminar um serviço rápido que o patrão me pediu para fazer e vou lá em cima resolver isso.
Subi com Jana para o quarto enquanto Mundico resolvia tudo.
Ela abriu a sacola sobre a cama e começou a tirar algumas roupas, colocando-as cuidadosamente sobre a cadeira. Observei seus gestos por um instante, sentindo uma estranha mistura de conforto e melancolia. Era bom ter alguém da minha intimidade ali comigo, mas também era um lembrete de que aquela presença era temporária.
— Você tem certeza que está tudo bem se eu ficar? — ela perguntou, enquanto dobrava uma blusa.
— Tenho — respondi.
— Tenho medo de o seu patrão não gostar de mim.
— Ele não vai se incomodar. Não se preocupe. O Adriano nesse sentido é gente muito boa.
Deixei Jana organizando suas coisas e desci. A casa estava mais silenciosa do que de costume, como se respirasse devagar naquele fim de tarde. Fui até a cozinha com a intenção clara de falar com Adriano, porque precisava lhe dar uma explicação sobre a presença de Jana na casa.
Ele estava encostado na bancada, uma xícara de café nas mãos. O cheiro forte do líquido recém passado preenchia o ambiente. Quando entrei, ele ergueu o olhar, rápido, e depois voltou a atenção para a xícara, como se aquilo fosse mais interessante.
— Adriano — chamei, com cuidado.
— Oi — respondeu, sem levantar a cabeça.
Aproximei-me um pouco, sentindo o coração bater num ritmo estranho.
— Hoje eu recebi uma visita… uma amiga minha, a Jana.
Ele me ouvia em silêncio.
— Ela veio se despedir — continuei. — Vai estudar fora. E… eu pedi para ela dormir aqui esta noite.
— Ele é sempre assim? — ela perguntou arregalando os olhos para mim.
—Assim, como? — perguntei fingindo inocência.
—Assim, tão gente boa? Ou é só com você que ele é assim?
Joguei um travesseiro nela e disse, fingindo estar aborrecida.
— Não enche, Jana!
Ela me olhou por um instante longo demais, como se quisesse dizer algo, mas acabou apenas sorrindo maliciosamente. Eu mudei de assunto:
— E você, algum namorado que eu ainda não conheça?
— Não tenho ninguém. Sabe como sou: não me apego — Jana falou me cutucando.
E era verdade. Jana nunca havia se apaixonado. Ela só “ficava” e depois se desfazia dos rapazes. Apesar de sermos muito amigas, nesse sentido, éramos completamente diferentes uma da outra. E eu admirava nela esse jeito independente de ser. Parecia que quanto mais ela esnobava os garotos, mais eles se apegavam a ela. Porém, tudo em Jana era voltado para os estudos e para coisas grandes. Seu objetivo maior sempre foi ir para fora do país; e agora ela conseguiu. E eu estava muito orgulhosa dela.
Sentamo-nos lado a lado. Conversamos mais um pouco, agora sobre coisas leves — filmes, professores antigos, histórias bobas do passado. Eu ria, respondia, participava. Mas uma parte de mim continuava presa lá embaixo, na cozinha, no jeito neutro com que Adriano havia dito “boa noite”.
Quando finalmente apagamos a luz, fiquei deitada olhando para o teto, ouvindo a respiração tranquila de Jana já adormecida. O quarto estava mergulhado numa penumbra suave, cortada apenas pelo luar que entrava pela janela. Pensei no contraste gritante entre aquela noite e outras não tão distantes: a casa de vidro, o mar, o toque dele, a sensação de pertencimento que eu tinha acreditado existir.
Mas então pensei em Jana, dormindo a poucos metros de mim, prestes a atravessar um oceano para viver seus sonhos. Pensei na coragem dela; talvez eu também precisasse aprender algo com isso.
Fechei os olhos, tentando afastar a confusão que me apertava o peito. O dia tinha sido intenso demais, com emoções demais, lembranças demais.

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