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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 57

Eu descia para o jantar com passos lentos, o corpo cansado de um dia que parecia ter durado mais do que as horas comportavam. A casa já estava envolta naquele silêncio morno do começo da noite, interrompido apenas pelo tilintar distante de louças e pelo som baixo do rádio que Quitéria insistia em manter ligado. Quando cheguei à cozinha, a cena me fez parar por um instante na porta.

Leon estava encostado na mesa grande de madeira, uma caneca de café nas mãos, o corpo relaxado, o sorriso fácil de sempre. Adriano estava de frente para a janela, também com uma caneca, o cotovelo apoiado no parapeito. Os dois conversavam. A luz amarela pendurada no centro da cozinha criava sombras duras no rosto de Adriano, ressaltando os ângulos sérios, o olhar duro.

Leon me viu primeiro.

— Olha quem apareceu — disse ele, abrindo um sorriso largo. — Já ia achar que você tinha desistido de jantar.

Sorri de volta, por educação mais do que por vontade, e entrei.

— Boa noite — falei.

— Boa noite, Marja — Leon respondeu.

— O dia foi longo — falei.

— Nem me fale — Leon deu um gole no café. — E ainda vai ficar mais agitado com o aniversário da cidade chegando.

Senti o olhar de Adriano pousar sobre mim por um segundo, rápido, quase automático, e depois se afastar como se nada tivesse acontecido.

— Quitéria comentou — respondi.

— Pois é — Leon confirmou. — Três dias de festa. Música, gente de todo canto. É nesses dias que a gente percebe que o povoado não é tão pequeno quanto parece.

— Parece interessante. — Comentei.

— Aposto que você nunca viu nada tão divertido. Talvez não seja assim na sua cidade. De onde você é mesmo?

— De uma cidade a 100 quilômetros da capital. É bem próxima, quase como se fosse um bairro mais distante.

— Então não sabe mesmo o que é festa do interior. Você vai? — Leon me encarou, curioso.

A pergunta veio simples, mas me pegou desprevenida. Olhei para a mesa, para as cadeiras vazias, para a chaleira soltando um fio de vapor esquecido no fogão.

— Não sei — respondi com honestidade. — Ainda não pensei nisso.

Leon arqueou as sobrancelhas, como quem entende mais do que o dito. Depois, apoiou a caneca na mesa, esticou os braços num gesto preguiçoso e olhou para Adriano.

— E então, o prefeito como sempre só se lembra de visitar os fazendeiros quando está se aproximando o aniversário da cidade. Já esteve nas minhas terras, já esteve aqui também e sempre que passo, o vejo perambulando entre uma fazenda e outra.

Adriano quase riu e respondeu:

— Está fazendo o trabalho dele.

Leon tomou o último gole do café e se levantou:

— Vou indo. Amanhã cedo tenho coisas para resolver.

— Boa noite — Adriano falou, num tom neutro.

Leon se aproximou de mim, tocou de leve meu ombro em um cumprimento afetuoso.

— Boa noite, Marja. Até qualquer hora.

— Boa noite, Leon.

— Claro — respondi, olhando para o prato, a voz saindo mais baixa do que eu gostaria.

— Aproveite e compre umas roupas adequadas para você e também para Cecília. Roupas para a festa, quero dizer. Se precisar de ajuda me avise. Posso ir com você fazer as compras.

Naquele momento pensei: “não precisa ir comigo comprar roupas. Eu só queria que você me abraçasse”.

Mas o que falei, foi:

— Não precisa se incomodar. Posso ir sozinha.

Adriano me olhou longamente, parecendo um pouco inquieto. Eu nunca entendia aquele homem. E naquele momento, continuei calada, porque parecia que ele queria me dizer algo que não era aquilo que estava dizendo. Eu esperei, dando oportunidade a ele de falar. Mas tudo o que Adriano disse foi:

— É só isso. Boa noite, Marja.

— Boa noite — respondi automaticamente.

Levantei-me, os movimentos rígidos, e saí da cozinha antes que qualquer emoção escapasse pelo meu rosto. Subi as escadas devagar, cada degrau parecendo mais longo do que o anterior.

No corredor, passei pela porta do quarto de Cecília. Abri devagar. Ela dormia profundamente, o desenho do dia ainda sobre a mesinha, os lápis espalhados. Observei seu rosto tranquilo por alguns segundos, buscando ali algum tipo de ancoragem.

Depois segui para o meu quarto.

Sentei-me na beira da cama, as mãos apoiadas nos joelhos. Os dias na casa de praia passaram pela minha mente como cenas de um filme: o silêncio confortável do café da manhã, a caminhada na areia, os beijos, o corpo dele no meu. Tudo aquilo agora parecia um sonho que acontecera há muito tempo.

Eu entendia. Ou tentava entender. Adriano voltara ao lugar que conhecia melhor: o da distância segura, do controle, das relações claras e delimitadas. Patrão e funcionária; pai e babá. Nada além disso.

Deitei-me olhando para o teto escuro. Fechei os olhos, sentindo a tristeza se acomodar na minha alma.

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