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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 55

Enquanto Adriano saltava do carro, observei que ele voltara a ser o mesmo de antes: frio, duro, objetivo. Saí do SUV olhando a fazenda ao meu redor, como se aquilo fosse um lembrete de realidade. Enquanto caminhávamos lado a lado até a entrada, observei que o casarão estava exatamente como sempre: imponente, misterioso, cheio de ecos.

Quando pisamos na varanda do casarão, a porta da frente se abriu de supetão.

— Marja! — Quitéria foi a primeira a aparecer, os olhos arregalados, as mãos levadas ao peito. — Ave-Maria, menina… que bom que você chegou!

Em dois passos estava à minha frente, me segurando pelos braços, como se precisasse confirmar que eu não era um vulto, nem uma lembrança.

— Sou eu, Quitéria — respondi, sorrindo fraco. — Voltei.

— Voltou viva, que é o mais importante! — ela retrucou, me puxando para um abraço apertado. — Você não sabe o susto que deu na gente.

Senti o cheiro conhecido do sabão de coco no avental dela, e aquele contato simples, quase materno, fez algo se desfazer dentro de mim. Eu não estava preparada para ser recebida assim.

Quitéria agora era mais amiga e companheira. Estava muito diferente do primeiro dia em que nos conhecemos, quando se mostrou cismada e desconfiada ao extremo.

Mundico veio logo atrás, tirando o chapéu num gesto respeitoso.

— A menina fez a fazenda inteira rezar — disse ele, sério. — Cobra não é brincadeira, não. Mas graças a Deus que Nosso Senhor Jesus Cristo poupou sua vida.

— Foi por pouco — acrescentei, tentando manter a voz firme. — Mas estou bem agora.

Benedita apareceu por último, silenciosa como sempre. Aproximou-se devagar, tocou de leve meu braço, como quem testa uma realidade improvável.

— Que bom ver você de pé — murmurou. — Cecília sentiu sua falta.

Meu coração deu um aperto imediato.

— Ela está bem? — perguntei.

— Está, sim — respondeu Benedita. — Hoje ficou mais quietinha que o normal, mas comeu direitinho. Agora está dormindo.

Respirei aliviada.

Durante todo esse tempo, Adriano permaneceu alguns passos atrás, observando a cena com o semblante fechado. Quando Quitéria finalmente se deu conta da presença dele, mudou o tom, como se um interruptor invisível tivesse sido acionado.

— E o patrão… — disse ela, ajeitando o avental. — O senhor deve estar exausto.

— Estou — respondeu ele, curto, objetivo. — Vou subir.

Não houve despedida, nem explicação. Ele simplesmente virou-se e entrou no casarão, os passos firmes ecoando no piso, até desaparecer caminhando em direção ao escritório.

Fiquei olhando por um instante, seguindo-o com os olhos. Aquela ausência repentina doía mais do que qualquer palavra.

Quitéria me conduziu até a sala, falando sem parar: contou das rezas, das noites em claro, do medo de que eu não voltasse. Mundico completava com detalhes exagerados. Benedita ouvia, às vezes acrescentava uma frase curta.

Sentei-me por insistência deles, aceitei um chá, mesmo sem vontade. O corpo pedia descanso, mas a cabeça estava inquieta demais.

Pensava em Adriano, em como ele simplesmente desaparecera assim que chegamos. Pensava na forma como cuidou de mim no hospital, no silêncio pesado do carro, nas respostas que eu nunca teria dele. Mas eu empurrava esses pensamentos para longe.

Agora, Cecília precisava de mim inteira. Quando ela acordou, no meio da tarde, seus olhos ainda estavam pesados de sono. Sentou-se na cama e me procurou com o olhar. Quando me viu, abriu um pequeno sorriso, tímido, quase secreto.

— Oi — falei baixo. — Voltei. Voltei para você.

Ela estendeu os braços, e eu a peguei no colo. Ficamos assim um tempo, eu sem conseguir dizer mais nada. Depois, ajudei-a a se levantar, levei-a ao banheiro, dei-lhe banho com o carinho de sempre. Cecília era a minha pequena, a minha filha do coração.

Vestida com uma roupa leve, sentou-se no tapete para desenhar enquanto eu observava, sentada na cadeira.

Naquele momento, o sol começava a cair, tingindo o quarto de tons alaranjados.

— Agora, vamos deixar os estudos para depois — disse, sabendo que ela entendia mais do que demonstrava.

Descemos juntas para o jantar. Quitéria fez questão de preparar algo leve para mim, vigiando cada colherada como se eu fosse de vidro. Adriano não apareceu.

— O patrão deve estar resolvendo coisas da fazenda — explicou Mundico, como se quisesse justificar sua ausência.

Depois do jantar, subi com Cecília novamente. Li para ela, inventando histórias a partir dos desenhos que fizera. Ela escutava em silêncio, atenta, os olhos brilhando.

Quando finalmente adormeceu, fiquei ali por mais um tempo, sentada na beira da cama, observando-a.

O dia tinha sido longo. E eu estava de volta à fazenda. De volta à rotina. De volta ao lugar que, apesar de tudo, tinha se tornado meu refúgio.

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