ADRIANO
Coloquei Marja no banco de trás do SUV com a ajuda de Domingos. Apoiei a cabeça dela no meu braço, ajeitei o cinto atravessado com cuidado e me sentei ao lado, puxando-a para o meu colo. Domingos fechou a porta com rapidez e correu para o banco da frente.
— Vai, Domingos! Não perde tempo — falei, a voz baixa, tensa.
O motor rugiu e o carro arrancou pelo caminho de terra, levantando poeira.
Marja gemeu baixo, um som quase infantil, e se remexeu de leve. Levei a mão ao rosto dela, afastando os cabelos colados pela transpiração. Agora a pele estava quente demais; era febre.
— Aguenta… — murmurei de novo, sem saber se falava com ela ou comigo.
O carro sacudia nos buracos da estrada, e eu tentava amortecer cada solavanco com o meu próprio corpo, segurando-a firme, protegendo-a como se isso pudesse impedir o veneno de avançar.
Foi quando ela se curvou de repente.
— Domingos, para! — gritei, mas já era tarde.
Marja vomitou com força, o corpo todo se contraindo. Segurei-lhe os ombros, tentando mantê-la ereta, para não sufocar. Ela continuou vomitando, o corpo fraco, quase sem forças para se sustentar.
Domingos acelerou ainda mais quando percebeu o que estava acontecendo. E o hospital do povoado apareceu à frente como um alívio.
Assim que o carro parou, desci com Marja nos braços. Nem esperei ajuda. Empurrei a porta com o ombro e entrei praticamente correndo.
— Cobra! Mordida de cobra! — gritei, a voz ecoando no corredor estreito.
Tudo virou movimento. Uma maca surgiu, mãos se estenderam, perguntas foram feitas. Colocaram Marja deitada, levantaram-lhe a perna, começaram a trabalhar com uma rapidez que me tranquilizou um pouco mais.
— Cascavel — disse eu, quando perguntaram. — Mordida no calcanhar.
A médica me confortou:
— Vamos iniciar o soro antiofídico imediatamente.
— Patrão, eu posso continuar dirigindo — ofereceu-se.
Olhei para ele por um segundo e respondi:
— Não. Obrigado por tudo o que você fez. Pode voltar pra fazenda.
Ele pareceu surpreso, mas concordou.
— Qualquer coisa… é só avisar.
Coloquei Marja deitada no banco de trás, com cuidado, ajustei tudo para que ela ficasse o mais confortável possível. Antes de fechar a porta, segurei a mão dela por um instante a mais.
Dei a volta, me sentei no banco do motorista e liguei o carro. Segui pela estrada, deixando o povoado para trás. Marja respirava mais forte agora e eu a observava pelo retrovisor a cada poucos segundos, contando movimentos, procurando sinais. Ela era tão nova! Tão cheia de vida! Ainda tinha muita coisa para viver.
A estrada para a capital se abriu à frente, longa, reta, prometendo respostas. Apertei o volante com força. Acelerei um pouco mais.

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