Enquanto rodávamos com o táxi pelas ruelas fétidas e estreitas, meu telefone bipou, anunciando uma mensagem. Eu estava tão impressionada (negativamente, é claro) que nem me importei em ler a maldita mensagem.
— Eu entendi que pegaríamos dinheiro com um agiota, Will... não com um mafioso.
— Mafioso? — ele riu — Mafioso é coisa de rico, Fê. Aqui temos é traficantes. Pessoas como nós não lidam com mafiosos. Somos meros insetos para eles. E outra coisa: estes mafiosos que você vê nos filmes são bonitos pra caralho. E usam perfume importado e óculos de grife. Aqui temos caras mal-encarados, que usam desodorante barato e desfilam com armas ilegais. Então, bebê, definitivamente não cofunda mafioso com traficante.
— Pelo visto você tirou o dia para me explicar como funciona a vida do pobre. Adivinhe? Eu não preciso disso. Sei o meu lugar.
— O agiota não mora aqui. Ele só faz negócios neste lugar. Acho que é para amedrontar um pouco.
— Ou os contados dele são os traficantes. Estes que nos matarão quando não pagarmos.
— Você vai ver que o meu agiota é um fofo.
Levantei os olhos, incrédula com a atitude do meu irmão. Peguei meu celular e fui abrir a mensagem. Era de Michael.
@Michael_ Oi, Fê.
@MFe_ Oi.
@Michael_ Estou te mandando o convite da minha formatura. E só para constar: não ir não é uma opção para você.
@MFe_ eu não me atreveria a não comparecer.
Eu era uma boa mentirosa. Sempre fui. A começar quando mentia para mim mesma, o tempo todo. E graças a isso eu acreditei que Michael sentia algo por mim.
@Michael_ te conheço o suficiente para saber que você está fugindo desesperadamente de mim. Detalhe: não sei o que eu fiz de tão errado.
Tentei digitar um simples “Você não fez nada”. Como eu disse, eu era ótima em mentir.
Depois pensei em colocar algo do tipo “Só estou fugindo de você porque pediu a pessoa que mais odeio na vida em casamento enquanto me cozinhou em banho maria a vida inteira”.
— Diga simplesmente: vai se ferrar, corno. — Will sugeriu.
Suspirei:
— Ah, eu não quero estraçalhar o coração dele. Prefiro que se parta aos poucos, em doses homeopáticas, assim como ele fez comigo.
— Se não vai mais ser amiga dele, diga que não vai a essa formatura e pronto.
— Sabe que as nossas famílias são amigas. Os pais dele não tem culpa do filho que tem.
— Pode continuar sendo amiga dos pais dele, que são pessoas incríveis, diga-se de passagem, mas não precisa seguir sendo capacho do Michael.
— Continua sendo ironia. Porque eu não pretendo, de forma alguma, perdoar o que ele me fez. E sim, irei na formatura.
— Por quê? Para ouvi-lo dizer que você é a melhor amiga dele e o ajudou com as dificuldades que ele teve ao longo do caminho e blá blá blá enquanto minutos depois agradecerá publicamente à Letícia por ter pagado a faculdade dele de forma “anônima”?
— Eu não quero me afastar de Michael, Will. Se eu ficar longe, ele não vai me procurar para contar que Letícia o corneou. E que graça vai ter se eu não for a primeira a saber e ver o sofrimento dele?
— Cara, você é psicologicamente fodida. Acho que é... por causa da falta que mamãe fez nas nossas vidas. Somos emocionalmente carentes pra caralho. E... completamente sem noção quando se trata de amor.
— Neste caso, você não é fodido psicologicamente, não é mesmo? Afinal, foi achado na lata de lixo.
Will gargalhou me puxou para aconchegar-me no seu peito:
— Eu te amo, irmã do coração. Porque foi “você” que foi achada no lixo.
Começamos a rir. E em minutos o carro parou. O caminho até o lugar onde o agiota emprestava o dinheiro era caótico. Mas a casa onde ele ficava não era das piores. Ainda assim, quando entramos no que eu preferi chamar de “escritório”, com as pernas um pouco trêmulas, quase me arrependi.
Pedir dinheiro emprestado ao banco era bem mais tranquilo. E humilhante, porque certamente me diriam “não”. Aliás, se puxassem minhas movimentações financeiras perguntariam: “Como você vive, mulher? Mal recebe para comer!” Me pouparia de ter que explicar: “Imagine só! E eu nem como sozinha naquela casa. Ainda tenho mais duas bocas para sustentar com meu emprego freelancer.”
Will não desceu comigo. Achamos mais seguro. Mas ele ficou esperando no táxi, com uma caneta de ponta fina na mão. Caso algum perigo surgisse, a ideia dele era assassinar alguém com a ponta do metal.
Não tinha uma mesinha com uma secretária, como eu imaginei que fosse. Era só um homem quase idoso, de cabelos branquinhos e barba quase igual à do Papai Noel. Eu sempre acreditei em Papai Noel, mesmo tudo conspirando para que aquilo fosse uma mentira.

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