Maria Fernanda abaixou a cabeça e as bochechas ruborizaram imediatamente:
— Eu... realmente não tenho capacidade para salvar o Davi caso ele caia na piscina — admitiu — ainda assim — me olhou e deu um sorriso leve — agradeço muito por ter me dado a oportunidade de participar desse processo. Sei que fiz tudo errado... os atrasos, as respostas que não lhe agradaram. Mas acho que a parte onde mais errei foi ter focado no Davi e não... no senhor. Eu realmente achei que a vaga fosse para cuidar dele.
— O que você está insinuando?
— Que o senhor é um tarado! — virou as costas e foi saindo.
Peguei-a pelo braço:
— “Eu” sou o tarado? — ri, com ironia — Quem aqui estava a alguns minutos atrás olhando para as minhas... como você chamou mesmo? Ah, sim, “partes íntimas”.
— Foi... com respeito. — fingiu inocência.
— Respeito?
— Me desculpe — ela olhou para os meus dedos no seu braço e soltei-a imediatamente. — E... obrigada por ter salvado a minha vida.
— Não vai dizer que pulei na piscina só para... tocá-la? — debochei — ou que tudo não passou de um teste para ver se eu... pularia para me aproveitar de você?
— Acho que começamos mal... desde lá... no seu escritório. — arqueou uma sobrancelha.
— Será... que foi lá mesmo que tudo começou, Maria Fernanda?
— Onde mais seria, senhor Enzo? — me encarou, atenta, esperando por uma resposta.
Eu poderia dizer: da boate. Você me dopou, não lembra? Mas... olhei para o lado e percebi que estavam todos nos olhando: Mabel, Shirley e Aayush.
Maçãzinha deu um longo suspiro e virou-se, dando-me as costas. Quando vi que ela não ficou junto das outras candidatas e estava indo em direção ao vestiário, gritei:
— Onde você pensa que vai?
Virou na minha direção:
— Em... bora?
Não, ela não podia ir embora. Que desculpa eu inventaria para trazê-la de volta?
— Você está contratada — falei imediatamente.
— Mas... ela não salvou o menino! — Shirley me olhou, confusa.
Ok, Shirley além de ter salvado o boneco tinha a maçã:
— Você também está contratada.
— E eu? — Mabel perguntou.
— Você não!
Ela me olhou, decepcionada. Ninguém mandou ela não ter uma maçã tatuada na bunda!
POV Maria Fernanda
Eu deveria estar feliz pelo emprego que mudaria a minha vida para sempre. E literalmente, talvez mudasse mesmo... e não só pela questão financeira, mas por tudo que representava: estar junto com Enzo Asheton diariamente. E estar carregando um filho dele.
Peguei um uber e enquanto olhava pela janela e pensava na minha vida, senti vontade de chorar. De emoção pelo emprego e de tristeza pelo que eu faria se estivesse grávida do homem com que transei uma única vez. E o que era pior: foi minha primeira vez.
Era muito azar... uma foda inteira, meia gozada e eu ter engravidado. Ou aquele homem era um reprodutor nato, ou eu uma máquina de fertilidade.
Vi uma farmácia e gritei:
— Pare! Vou desembarcar aqui mesmo.
O motorista parou e desci imediatamente do carro. Era melhor saber logo o resultado e sofrer de uma vez só, não em doses homeopáticas. Tudo bem que eu fosse um pouco masoquista (levando em conta que que passei a vida inteira amando um homem que ignorava meus sentimentos e ainda brincava comigo). Mas era hora de tentar não brincar mais de ser salva-vidas dos outros e tentar organizar a minha própria vida.
Aquela farmácia, uma franquia de nome conhecido, parecia grande demais para um bairro tão pouco povoado. Eu nem tinha certeza de onde de fato estava. Mas pouco importava. Era só comprar o teste de gravidez e chamar outro uber para ir embora.
Comprei o teste rápido. Cuidei para escolher o mais preciso. Quando fui pagar, percebi que minhas mãos estavam trêmulas.
— A senhora quer usar o nosso banheiro? — a atendente perguntou, de forma simpática, querendo ser útil.
— Não, obrigada.
Era melhor eu usar o “meu” banheiro. E muito mais seguro.

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