Aayush franziu a testa:
— Esta parte... faz mais sentido.
Sorri, satisfeito:
— Viu que trabalhar comigo é tratar de problemas reais?
Aayush simplesmente me observou, sem dizer nada.
— Aayush... verifique para mim se há alguma possibilidade de Amanza receber algum habeas corpus. Eu acredito que não. Acompanho sempre de perto a situação legal dela. Ainda assim... todo cuidado é pouco. Precisamos estar prevenidos.
— Mas... faz sentido botarmos Maçãzinha para dentro da sua casa... se ela oferece perigo, como o senhor diz?
— Prefiro o perigo debaixo do meu nariz. Eu lido melhor com ele dessa forma.
— E se tudo não passar de... coincidências... e Maçãzinha... não for quem o dopou naquela noite?
— Não acredito em coincidências. Para mim elas são conspirações que ainda não entendi. Nessa vida eu aprendi que o perigo nunca avisa quando chega. Eu sobrevivi porque desconfiei.
— Senhor... será que realmente quer a verdade... ou uma desculpa para mantê-la por perto? Em todo esse tempo que trabalho com você... nunca o vi tão obcecado por algo... ou... alguém.
Eu ri. Nem adiantava falar da ousadia de Aayush, porque ele era ousado por natureza comigo.
— Foi só uma noite, porra. Eu... já fiz isso com várias mulheres. Acontece que nenhuma delas me fez parar no hospital. E nenhuma delas me interceptou na cabine de um banheiro masculino. E nenhuma delas me deixou para ser socorrida por outro homem. E nenhuma delas sabia tudo sobre medicamentos que causam doping. E nenhuma delas tinha a porra de uma maçã mordida tatuada na bunda. E nenhuma delas... me deixou tão louco.
— Seria... pelo senhor ter parado no hospital?
Não. Seria por vários outros motivos. Aquela mulher mexeu comigo de alguma forma. E eu nem conseguia explicar ao certo porquê.
— Você pode achar que é paranoia minha, Aayush. Mas eu vivo em estado de alerta permanente depois de ter visto uma arma apontada para a cabeça do meu filho. E de perceber que a própria mãe dele seria capaz de matá-lo por dinheiro. Eu sobrevivi a algumas tentativas de assassinato... todas elas orquestradas pela minha própria família. E isso moldou a minha mente a desconfiar antes de sentir. Maçãzinha não se encaixa em nenhuma ameaça conhecida. E isso me assusta mais do que qualquer inimigo declarado. Eu só quero a verdade sobre o que aconteceu naquela noite.
— E se a verdade for entediante?
— Não será.
— E se ela não tiver feito nada?
— Então alguém fez.
— E se ninguém fez?
O encarei, furioso.
Davi reapareceu com um capacete de brinquedo.
— Posso pular do sofá?
— Não.
— Da sua mesa?
— Não.
— Do chão?
— Você já está no chão.
— Então é isso — concluiu Aayush. — Você vai observá-la. Testá-la. Provocá-la.
— Até saber a verdade.
— E se... eu disse “se”, o senhor começar a desenvolver sentimentos por ela?
— Não. Isso é impossível.
— Por quê?
— Porque eu nunca vou me apaixonar. Minha mãe se apaixonou pelo meu pai e perdeu tudo que tinha na vida. Ele, por sua vez, se apaixonou por uma vagabunda que o transformou num idiota fraco. Zadock se apaixonou por Caliana e... que nojo... eles até procriaram. E Zadock é um monstro. E devia ser proibido monstros procriarem. E você se apaixonou por Emma. E... sabe melhor do que eu tudo que aconteceu.
Davi voltou com um desenho amassado:
— Papai, olha...
Era um boneco com uma gravata enorme e uma criança segurando a mão dele. E... de onde ele tirou aquela mulher com os cabelos amarelos? Ela tinha na mão... uma batata frita?
— Sou eu? — perguntei, confuso.
— É você — confirmou. — E ela.
— Ela quem?
— A moça que me deu felicidade em forma de comida.
— Que moça é essa? Com quem você conversou, Davi? Onde? — olhei para Aayush — Estão rastreando o meu filho. É pior do que pensávamos. Agora temos outra mulher na jogada.

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