— Leonor, esses novos internautas lá fora... foi você quem arrumou toda essa galera? — Augusto apareceu vindo da área de espera, o semblante mais pesado, enquanto via Leonor ajeitar o último detalhe do vestido.
Na realidade, Augusto só tinha convidado, com cautela, menos de dez pessoas, instruindo cada uma delas a apenas aquecer a vibe e segurar qualquer excesso. Só que agora, havia facilmente uns cinquenta fãs reunidos do lado de fora, prontos para confusão, todos com jeito de quem foi para causar, claramente organizados e trazendo até bolsas suspeitas. E, no círculo deles, só Leonor tinha esse poder de convocação.
— Fui eu sim. — Respondeu Leonor, cuidando do look com tranquilidade. — São gente que me segue faz tempo, são minhas fãs raízes, estão comigo desde que comecei a compartilhar minha rotina na internet. Quando a Margarida subir no palco para me pedir desculpa, essas meninas vão causar! Mas eu não reservei cadeira para nenhuma delas.
Augusto ficou um tempo calado antes de comentar:
— Se essas pessoas entrarem, vai virar bagunça. E não tem lugar para todo mundo.
— Ué, qual o problema? — Leonor deu de ombros e riu, com aquele olhar malicioso de quem não liga para regra. — O Hotel Luar é gigante, se faltar cadeira é só pedir para o pessoal do serviço colocar uns banquinhos nos corredores. E quer saber ainda? O Vicente pensa que está ajudando a Margarida cedendo o hotel, mas está mesmo fazendo um favor para mim.
A real era que todo aquele evento só tinha acontecido ali porque usaram o nome da Margarida para convencer o Vicente. Ele, achando que estava retribuindo algum favor ou ajudando, nem se preocupou em checar os detalhes, só concordou na hora, sem imaginar que estava empurrando Margarida para o olho do furacão.
Por dentro, Leonor achava até engraçado. No fim, se o Vicente descobrisse a verdade, ia ficar furioso, mas problema era dele. Ele que não quis emprestar o hotel quando era para festa dela; agora, que pagasse o preço.
— Imagina! Nem precisa se preocupar, já te poupei trabalho. Você passou mal outro dia, ficou exausto no hospital e até o Carlos comentou disso comigo. Então resolvi agilizar. Já deixei tudo pronto. Daqui a pouco, entrego para Margarida em mãos.
Ela pegou da bolsa o documento já impresso. Ali estava escrito, preto no branco, que entre Margarida e a família Carvalho nada mais existiria. E ainda, uma última linha em negrito gritando no papel: "Margarida e Augusto não tem qualquer vínculo!"
Na mesma hora, Augusto sentiu tudo apertar por dentro. As mãos se fecharam com tanta força que até as veias saltaram. Aquela última frase parecia um golpe de faca. Num ímpeto, ele quase avançou para arrancar o papel das mãos dela.
Só que, antes do impulso, sons de passos vindos de longe anunciaram a chegada do pessoal das famílias Almeida e Carvalho. Augusto parou no ato, manteve-se ao lado de Leonor, o maxilar travado e os punhos ainda mais cerrados.

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