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A Amante que Virou Cunhada romance Capítulo 7

O céu, antes cristalino, foi escurecendo aos poucos até a noite engolir tudo ao redor. Dentro do carro, um silêncio pesado dominava o ambiente, quase evidente.

Margarida ocupava o banco do passageiro, ao lado de Vicente, deixando para trás a mansão da família Carvalho.

A luz fria da lua invadia a janela, criando um brilho prateado que envolvia Vicente, destacando ainda mais sua figura imponente e distante.

Na presença dele, Margarida não conseguia mostrar nem sombra da rebeldia de antes. Momentos atrás, na casa da família Carvalho, tinha se mostrado toda espinhosa, mas agora, recolhida em si, mantinha a cabeça baixa, arriscando apenas olhares furtivos em sua direção.

— Sr. Vicente, muito obrigada. — Murmurou ela, quebrando o silêncio.

Mais cedo, no calor da discussão, Margarida tinha chamado Vicente apenas pelo nome na frente de todos, mas agora, mais calma, percebia sua imprudência. Vicente era uma figura importante, além de ser seis anos mais velho que ela, assim como Augusto. Como pôde tratá-lo com tanta informalidade?

Vicente seguia dirigindo com os olhos fixos na estrada, mas ao perceber a mudança na forma de tratamento, arqueou de leve a sobrancelha e virou o rosto para encará-la.

Não disse nada, mas o ar dentro do carro ficou ainda mais denso.

Talvez seu agradecimento tivesse soado superficial demais. Então, mesmo desconfortável, Margarida se forçou a continuar:

— Olha, Sr. Vicente, me desculpe por ter ligado assim, do nada. Eu nem sabia se o senhor estava ocupado com algo importante e acabei pedindo um favor enorme. Foi super inconveniente da minha parte.

Respirou fundo, esforçando-se para que sua voz não falhasse.

— Mas pode ficar tranquilo. Esta foi a última vez que pedi sua ajuda. Não importa o que aconteça daqui para frente, prometo que nunca mais vou incomodar você.

Afinal, Vicente já tinha vindo socorrê-la uma vez. Margarida não era ingrata. Considerava que, com esse gesto, a dívida entre eles estava paga. Prometia a si mesma apagar o número dele do celular e jamais buscar sua ajuda novamente.

Ao terminar de falar, ela pegou o celular, decidida a cumprir sua promessa naquele exato momento.

De repente, o carro parou.

Ela deu um pulo na cadeira e, antes que pudesse perguntar algo, a voz grave de Vicente preencheu o espaço:

— O que aconteceu com sua perna e seu rosto? O Augusto não tem cuidado de você direito?

Perna e rosto?

Só então Margarida se deu conta da dor que tinha esquecido por um momento, mas que agora voltava com tudo. Baixou os olhos para o curativo na perna, onde a gaze estava de novo manchada de sangue, e tocou os lábios inchados com um sorriso dolorido.

— Minha perna foi num acidente na galeria de arte. E o rosto foi o Augusto que me bateu.

— Por quê? — Vicente lançou um olhar intensamente sério.

A pele delicada da jovem, macia como porcelana, exibia agora um inchaço terrível na bochecha. A palidez destacava ainda mais sua fragilidade, e o sangue no curativo da perna só aumentava a impressão de que estava vulnerável.

— Você não é namorada do Augusto?

— Ah! — Margarida estremeceu, sentindo um zumbido nos ouvidos. Depois de alguns segundos, conseguiu balbuciar, ainda atordoada. — Sr. Vicente, como o senhor sabe disso?

Ela só tinha falado sobre o namoro com a melhor amiga. Vicente vivia enfiado no trabalho e não tinha como saber desse rolo entre ela e Augusto.

Ele desviou o olhar e voltou a se concentrar na estrada à frente.

— Você me deu uma mão no passado. Algumas coisas sobre você acabam chegando até mim de vez em quando. — Vicente explicou.

Em outras palavras, o caso entre Augusto e Margarida era uma daquelas coisas que Vicente "por acaso" ficava sabendo.

Margarida apenas balançou a cabeça, meio confusa. Nunca imaginou que Vicente ligasse tanto para alguém que tinha dado uma força para ele no passado. Mas saber que ele estava por dentro de tudo só fez ela se sentir ainda mais humilhada com o que tinha acontecido naquele dia.

— Sr. Vicente, eu e o Augusto já acabamos de vez.

— Tem certeza disso? — Vicente hesitou na hora, os olhos negros e fundos parecendo um redemoinho no meio de um mar sem fim. Demorou uns segundos carregados até que ele finalmente respondesse, com aquela voz grave que era marca registrada dele. — Olha, Margarida, a Leonor e ele só vão oficializar o noivado daqui a três meses. Se você quer mesmo impedir essa história, ainda dá tempo.

Afinal, o acordo entre as famílias Almeida e Carvalho não dependia só de Augusto e Leonor.

Vicente era meio-irmão da Leonor por parte de pai e o verdadeiro cérebro por trás do império da família Almeida.

Desde os oito anos, quando Margarida foi acolhida pela família Carvalho, ela se apaixonou completamente por Augusto. Se não amasse ele até o tutano, não teria aguentado passar três longos anos sem reconhecimento oficial, aceitando ser só a namorada dele.

Por isso, Vicente duvidava de verdade que ela tivesse decidido acabar com tudo assim tão fácil.

Mas Margarida deu um sorriso triste, seu rosto ganhando uma calma que ele não esperava.

— Sr. Vicente, eu sei que aprontei um barraco hoje na casa da família Carvalho. E talvez o senhor ache que fiz tudo no impulso. Mas a verdade é que venho matutando sobre isso há um tempão. — Ela respirou fundo antes de continuar. — Eu amei o Augusto com tudo que eu tinha, e por isso engoli tanto sapo e continuei mesmo quando cada respiro doía. Mas finalmente entendeu tardiamente que uma relação onde só um lado se dedica já era. Quando a gente dá de cara com um muro, o mais esperto é dar meia-volta. O que existia entre mim e o Augusto acabou. Todos os meus sentimentos por ele também morreram.

Fosse o amor intenso ou até a amizade que veio antes.

De agora em diante, ela seguiria uma nova filosofia. Quem não a queria, ela também não queria mais.

Então, não tinha nenhum sentido Vicente tentar meter o bedelho no noivado planejado entre as famílias.

Com uma sinceridade que desarmava qualquer um, Margarida falou:

— Sr. Vicente, eu sei bem que a situação dentro da família Almeida é um ninho de cobra. Aquela ajuda que te dei tantos anos atrás nem foi algo tão grande quanto parece. Já pensei muito sobre isso. Hoje, só de ter me tirado da casa da família Carvalho já é um favor enorme. Não precisa se meter em mais confusão por minha causa.

Afinal, a ajuda que Margarida tinha dado a Vicente naquela época distante também tinha sido mais por acaso do que qualquer outra coisa.

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