Naquele exato momento, enquanto Margarida esticava a mão para pegar seus documentos, outra mão surgiu ao mesmo tempo, tentando arrancá-los dela.
O susto quase a fez perder o chão, mas, antes que conseguisse reagir, uma figura de porte firme e olhar frio se colocou à sua frente, bloqueando a mão que avançava contra ela.
Era Vicente, erguendo-se como um escudo para protegê-la.
Por um instante, o ar pareceu ficar suspenso.
Augusto, de olhar carregado e ainda com o braço levantado no vácuo, cravou os olhos em Vicente, que permanecia ao lado de Margarida, imóvel.
— Sr. Vicente, por que insiste em se meter, de novo e de novo, nos assuntos entre mim e a Margarida? — Rosnou Augusto, sem disfarçar a raiva.
Vicente não respondeu. Continuou parado diante de Margarida, lançando um olhar sério a Augusto, mas sem demonstrar qualquer perturbação em seu semblante.
Enquanto isso, Margarida, ainda nervosa, guardava com cuidado o documento recém-recuperado. Logo em seguida, respirou fundo e avançou um passo.
— Augusto, presta atenção no que está dizendo. Que assuntos nós temos? Você apareceu do nada querendo arrancar alguma coisa de mim. O Sr. Vicente só quis me ajudar.
Augusto ajeitou a armação dourada dos óculos, um brilho gelado passando por suas lentes. Ainda assim, tentou controlar a expressão antes de falar:
— Margarida, eu também quero o seu bem. Documentos são algo importante. Eu poderia cuidar deles de forma mais segura.
— Mas eu não sou criança de três anos. — Rebateu Margarida, com firmeza na voz. — Sei cuidar das minhas coisas e, além disso, não existe nada entre nós. Então não tem por que você bancar o protetor dos meus documentos.
Ela apertava forte aqueles papéis contra o peito, lembrando-se de como havia passado três anos sem eles. Agora que estavam de volta às suas mãos, jamais permitiria perdê-los outra vez. Precisava deles para algo ainda mais importante.
Pressionando os lábios, Augusto pareceu chegar ao limite:
— Você!
Afinal, Margarida, "compreensiva", não revelava ainda as sujeiras que Leonor aprontava.
Então, Leonor queria sumir dali quanto antes, muito menos ficar na frente de Vicente. Ela temia que ele decidisse acerto de contas de uma vez por todas.
Ao se ver forçado a dar as costas, Augusto fechou os punhos com força. Parecia a ponto de explodir, mas, depois de uns segundos de hesitação, acabou seguindo com Leonor. Mesmo assim, antes de entrar no carro, olhou fundo nos olhos de Margarida, como se quisesse dizer, num silêncio eloquente: "Margarida, isso ainda não acabou para nós."
...
Margarida não conseguiu deixar de franzir o cenho. Aquela sensação sufocante de afundar no mar gelado a invadiu novamente, esmagando seu peito. Era como se uma onda fria se repetisse indefinidamente, cobrindo-a.
No entanto, naquele exato instante, sentiu também outro par de olhos pousando sobre ela, mais intensos, penetrantes e cuidadosos.
Margarida piscou, surpresa, e ergueu devagar o olhar. Encontrou o de Vicente, que a observava em silêncio.

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