Margarida sabia muito bem que a família Carvalho, por mais desprezível que fosse, ainda representava o melhor parceiro comercial para Vicente. Mesmo assim, quando pousou a xícara de chá, encarou Luísa com tranquilidade absoluta.
— Não aceito. — Ela recusou, sem hesitar. — Dona Luísa, se quer organizar um jantar, organize o seu. Não nos inclua nessa história, nem a mim, nem ao Sr. Vicente.
A decisão era firme. Vicente havia rompido com a família Carvalho por ela, defendendo sua posição contra todos os que se opunham. Como poderia agora, por conta própria e achando que faria bem a Vicente, aceitar perdoar aquela família e jogar fora toda a dedicação que ele havia mostrado?
Seria o mesmo que apunhalar Vicente pelas costas.
Margarida se levantou e disse para Laura:
— Acompanhe a dona Luísa até a porta. Se ela voltar aqui batendo, não abra mais sem avisar. Vou subir para o ateliê trabalhar nas esculturas.
— Espere! — Luísa também se ergueu de um salto, o rosto contorcido de incredulidade. — Margarida, já me rebaixei tanto diante de você, e ainda me trata com essa frieza! Que história é essa de ateliê no andar de cima? Vicente realmente não se importa com a sujeira da escultura e ainda montou um ateliê dentro de casa?
— Ele não sabe que isso não dá futuro nenhum e que você não vai ganhar dinheiro com essa bobagem? — Continuou Luísa, cada vez mais alterada.
Desde sempre ela se opunha ao interesse da filha pela arte. Carlos e Augusto tinham obsessão por limpeza, e ela já se esgotava todos os dias só para manter a casa impecável. Como permitir que a filha mexesse com argila suja dentro de casa?
Margarida não perdeu tempo com respostas. Laura já arregaçava as mangas para conduzir Luísa porta afora, e em meio aos protestos indignados da mulher, Margarida subiu as escadas até o ateliê.
Naquele momento, Teresa ligou por videochamada. Margarida atendeu ali mesmo, em pé no meio do ateliê.
Assim que a tela acendeu, Teresa ficou em choque, os olhos arregalados de espanto.
— Margarida, esse é o ateliê que Vicente montou para você na casa nova? Primeira vez que vejo uma coisa dessas... Olha, nem os ateliês dos mestres lá fora são assim! Sr. Vicente realmente não decepciona!
— É verdade. — Margarida sorriu, tocada pela generosidade do marido. — Sr. Vicente nunca economiza quando se trata de mim. Teresa, por que ligou hoje?
— Ora, que pergunta! Soube que você ia começar a trabalhar hoje, então liguei para saber como estão as coisas. E já aproveito para te lembrar que os direitos exclusivos de exposição são meus, viu? Senão, vou chorar no seu ombro! — Teresa fez a ameaça com ar de quem não estava brincando.

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