Vicente precisava resolver pessoalmente um assunto importante e, para isso, teria que se ausentar por um tempo. Ele hesitou por um instante, franzindo a testa, mas Margarida logo se apressou em encorajá-lo:
— Vicente, vá lá cuidar do que precisa. Eu fico aqui te esperando.
A verdade era que aquilo era mesmo importante, e, além disso, havia vários parentes presentes ali naquele momento. Se Margarida ficasse buscando atenção ou dificultando as coisas para Vicente, acabaria dando margem para que aquelas fofocas sobre ela ser "mulher grudenta", como Leonor tanto fazia questão de espalhar, ganhassem força entre os familiares, e ela certamente sentiria na pele o peso do desprezo de todos.
Vendo a situação, Marina sorriu dizendo, com um tom tranquilo:
— Vicente, você sempre foi prático e direto em tudo que faz, não tem motivo pra hesitar hoje. Pode deixar que a Margarida vai ser muito bem recebida aqui na família Almeida, pode ir tranquilo.
— Não se preocupe. — Acrescentou Guilherme, com o olhar sério enquanto tomava um gole de chá. — Vá resolver o que for preciso, só não atrase o horário da cerimônia. Não queremos que aconteça nenhum contratempo na homenagem à sua mãe.
Sem outra alternativa, Vicente apenas fez um gesto carinhoso, passando a mão de leve pelos cabelos de Margarida e prometeu que voltaria logo após o jantar, antes de sair com passos apressados.
Marina ficou observando Vicente se afastar, o olhar um pouco distante, como se pensasse em lembranças antigas. Depois de um tempo em silêncio, finalmente voltou sua atenção para Margarida, sorrindo.
— Margarida, o Vicente pode ser meio controlador, sabe? Mas não precisa se preocupar, com você aqui na família Almeida, não tem perigo nenhum. Antes de irmos à capela para a homenagem, queria aproveitar para te mostrar a casa inteira, assim você já vai se ambientando. Vou te ensinar também algumas tradições da nossa família para não ter perigo de você se atrapalhar em nada.
— Quando chegar a hora, quero que ensine bem direitinho para ela, para não passar nenhum aperto. — Guilherme entrou na conversa, seu olhar distante como se relembrasse algo do passado.
Margarida percebeu aquela expressão pela primeira vez e ficou intrigada, sentindo que havia um certo mistério no ar envolvendo a família Almeida.
No fim, quem acompanhou Margarida até o andar de cima foi justamente a empregada responsável pelo acidente. Quando chegaram diante de um quarto elegante e bem decorado, Margarida olhou ao redor e notou que a varanda era especialmente clara, a luz do sol entrava suavemente pelas grades brancas, criando um clima quase onírico.
A empregada, cabisbaixa, murmurou baixinho:
— Por favor, senhora, pode entrar para trocar de roupa.
Margarida acenou com a cabeça, mas antes mesmo de entrar no quarto, parou de repente. A empregada reparou na hesitação e, ao levantar os olhos, deparou-se com o olhar gelado e desconfiado de Margarida.
— Esse quarto não é o da dona Marina, né?

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