— Não, não é que o Vicente está precisando de uma companheira. O problema é que ele anda em pé de guerra com a madrasta... — Esclareceu Margarida, lembrando-se de como, entre lágrimas e explicações sobre o que aconteceu naquele dia, acabou soltando sem querer as palavras que o gerente do hotel havia dito.
Na verdade, Vicente não estava precisando de uma companheira. Ele só não encontrou alguém de quem realmente gostasse a ponto de casar e, assim, bloquear as investidas da madrasta.
Como o próprio gerente comentou, se ele fosse casado, aquela madrasta dissimulada da família Almeida não ia mais conseguir empurrar outras mulheres para cima dele.
Para Teresa, no entanto, tudo se resumia a uma questão bem simples.
— Se ele está sozinho, então está precisando, né? — Ela abriu um sorriso. — Ele te ajudou um monte e até prometeu continuar ajudando para quitar a tal dívida que tem com você. Fala aí se eu estou errada?
— Não, não está... — Margarida respondeu, sentindo um calafrio se espalhar. — Peraí, Teresa, não me diz que você está pensando em...
— Exatamente nisso! — Exclamou Teresa, segurando o rosto de Margarida com as duas mãos, os olhos faiscando. — Liga agora para o Vicente e diz que topa ser a mulher dele. Pronto! Assim ele te paga de uma vez esse favor!
O raciocínio de Teresa era reto e direto.
Margarida temia as retaliações depois do fim com Augusto, enquanto Vicente precisava urgentemente de alguém que barrasse os planos maliciosos da madrasta.
Teresa soltou um sorriso e reforçou:
— É como se você estivesse caindo de sono e alguém chegasse com um travesseiro. Se não aproveitar agora, quando vai aproveitar?
— Dormir com o Vicente? De onde você tirou essa ideia? — Murmurou Margarida, incrédula.
Ainda mais considerando que Vicente tinha um status bem acima do Augusto. Como ela poderia se equiparar a ele? Desviou o olhar e reclamou:
— Teresa, você está num estado mental perigoso. Vou fingir que nem ouvi.
— Ah, deixa de ser boba! Estou falando sério! — Insistiu Teresa, aproximando o rosto do de Margarida e cochichando. — Não deixa o idiota do Augusto te pôr para baixo com toda aquela manipulação dele. Você é incrível, na vida e no que faz. Se o Vicente resolveu te ajudar, é porque enxergou algo em você. Por que não se dar essa chance? Ou vai ficar até o fim deixando a Leonor pisar em cima de você como se fosse a dona do mundo?
Os cílios de Margarida tremeram, mas nenhuma palavra saiu. Lá, no fundo, ela sentia que ela e Vicente não combinavam, graças à baixa autoestima que Augusto havia alimentado ou pela crença de que existia um abismo entre a realidade dela e a dele.
Além disso, gostasse ou não, Leonor, tendo vencido aquela queda de braço, estaria ainda mais insuportável de agora em diante.
...
— Aaaaah! Vicente, aparece agora mesmo!
Na manhã seguinte, sob um sol que mal começava a rasgar o céu, um grito estridente ecoou pelos corredores do Grupo Almeida.
A voz era tão aguda que chegava a irritar, mas, lá na cobertura, Vicente seguia com sua reunião matinal como se nada tivesse acontecendo. Parecia não dar a mínima para o alvoroço do lado de fora, como se ouvisse apenas um mosquito zanzando ao longe.
Já tinha se passado uma hora. Só então, quando a maioria dos executivos não aguentava mais ouvir aqueles escândalos, e quando a pessoa lá fora já estava quase sem fôlego, Vicente fez um ligeiro gesto com a mão para encerrar a reunião.
Augusto, que também estava ali, levantou a cabeça ao escutar aquelas palavras duras.
Furiosa a ponto de já ficar com o rosto meio arroxeado, Leonor começou a gaguejar, perdendo a confiança:
— Vi... Vi... Vicente, você acha mesmo que pode fazer o que quiser?
— Agradeça à sua própria burrice. — Sem hesitar, Vicente jogou um dossiê volumoso aos pés dela, mantendo o olhar afiado. — Você passou um ano responsável pelo projeto com o Grupo Carvalho, mas o progresso não passou de trinta por cento. Faltou ao trabalho mais de cem dias e, ainda assim, pediu verba seis vezes, num total de 3,2 milhões, usando menos de vinte por cento para o serviço. Leonor, esse cargo foi arranjado pela sua mãe, que praticamente implorou para você estar aqui. Agora, com essa sujeira toda, quem você acha que seu pai vai responsabilizar? A mim ou você?
Vicente apoiou os dedos longos na mesa e continuou, sem pressa:
— Se eu tiver a boa vontade de levar isso ao Ministério Público, a acusação de desvio de verba pública pode muito bem te render uns dez anos de prisão.
Ao ouvir isso, o rosto de Leonor empalideceu na hora. Ela só não despencou porque Augusto a amparou.
Ela sempre acreditou que, por ser a princesinha da família Almeida, poderia se encostar sem grandes consequências. Jamais imaginou que a situação fosse ficar tão grave. Pior ainda, o fato de Vicente ter reunido tantas provas deixava claro que ele sabia de tudo há muito tempo. Só agora resolveu agir. Mas por quê?
Com a voz trêmula, ela encarou Vicente, uma desconfiança súbita tomando conta:
— Você... está fazendo isso para proteger a Margarida, não está? Está me derrubando por causa dela!

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