— Srta. Margarida, sua família ainda não atendeu o telefone? — Perguntou a enfermeira, já em sua enésima indagação.
Margarida estava sentada na pequena cama da sala de atendimento, ouvindo aquela pergunta repetida diversas vezes, enquanto o celular que ela havia ligado permanecia mudo, como se afundasse no silêncio.
Sob a luz opaca da lâmpada, seus traços delicados e sua postura frágil se evidenciavam. Mesmo com os dedos levemente pálidos ao segurar o aparelho, havia nela um charme etéreo, algo tão bonito que parecia acima do mundano.
Mesmo vestindo apenas uma simples blusa branca e calça preta, ela emanava uma beleza encantadora, quase sobrenatural, que suavizava até mesmo o tom apressado da enfermeira.
— Srta. Margarida, seu tornozelo apresentou uma lesão grave nos tecidos moles. Se você for para casa sozinha, corre o risco de agravar a situação. É melhor que alguém venha te buscar para podermos autorizar sua alta. — Explicou a enfermeira, com voz carregada de preocupação.
Margarida baixou a cabeça, e após um silêncio, respondeu num murmúrio quase inaudível:
— Desculpe... Acho que ele deve estar ocupado com trabalho. Provavelmente não virá.
Naquele dia, houve um caos na galeria de arte. Durante a exposição, dois garotos, impulsivos demais, haviam destruído uma escultura exposta. Os pais tentaram minimizar o ocorrido com a desculpa de que "são apenas crianças brincando", o que provocou um confronto acalorado entre as partes. Logo, trocas de insultos, empurrões e até gritos fizeram do local uma cena chocante.
Como ex-aluna da faculdade de artes, Margarida estava lá como voluntária. Apesar de seus esforços para impedir a briga, acabou se envolvendo e sofreu uma lesão no tornozelo, com sangue escorrendo copiosamente.
Desde a chegada à emergência naquela tarde, enquanto os demais estudantes feridos já haviam sido recolhidos por seus familiares, Margarida permanecia sozinha no hospital.
Com um tom cuidadosamente persuasivo, a enfermeira perguntou:
— Moça, você tem namorado? Se preferir, pode chamar seu namorado para vir te buscar.
Namorado...
Mas era exatamente seu namorado que ela estava tentando contatar.
Ao ouvir essa indagação, Margarida apertou os lábios, demonstrando ainda mais desconforto diante da situação que lhe pesava.
Naquele instante, a televisão ligada ao fundo irrompeu em notícias. A locução anunciou com entusiasmo: [Bombástico! Augusto Carvalho, o presidente do Grupo Carvalho, reservou o Hotel Luar para presentear a filha da família Almeida com um sapato de cristal feito sob medida, além de declarar publicamente que estão apaixonados. O noivado está previsto para daqui a três meses!]
Na tela de alta definição, uma jovem de traços delicados sorria para as câmeras, enquanto Augusto, o homem com quem Margarida mal conseguia manter contato, se ajoelhava diante da garota, ajustando cuidadosamente a fita cor-de-rosa que adornava o sapato de cristal.
Em seus olhos, parecia que só havia espaço para ela, como se o mundo ao redor simplesmente não existisse.
A enfermeira, observando a notícia, não pôde deixar de comentar, entre suspiros e um tom de admiração:
— Esse romance da alta sociedade é tão doce, não acha? O presidente do Grupo Carvalho e a filha da família Almeida formam um casal perfeito. Aposto que a internet está fervendo de comentários!
Outra enfermeira comentou, com um misto de resignação e inveja:
— Olha só, enquanto eles desfrutam de felicidade num hotel, aqui estamos nós, sozinhos no hospital...
As palavras das enfermeiras penetraram os ouvidos de Margarida, aprofundando o tom já pálido de seu semblante, afetado pela perda excessiva de sangue.
No final, foi um telefonema para Teresa Moura, sua grande amiga, que a tirou do hospital.
Teresa andava ocupada com os preparativos para uma exposição de arte nos últimos dias. Se não fosse uma verdadeira emergência sem mais ninguém para ajudar, Margarida jamais teria incomodado a amiga tão tarde da noite.
Mas Teresa claramente não considerava isso um incômodo.
Ao ver a situação deplorável da amiga, Teresa a abraçou com os olhos marejados e exclamou:


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